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Festival de Gramado (8)/Histórias de resistência e morte

Luiz Carlos Merten

23 Agosto 2017 | 17h57

GRAMADO – Tivemos ontem à noite dois filmes que deram o que falar. O argentino Sinfonia para Ana, de Virna Molina e Ernesto Ardito, e o brasileiro A Fera na Selva, de Paulo Betti, Eliane Giardini e Lauro Escorel. O filme da Argentina trata da repressão na Escuela Nacional de Buenos Aires, naquele momento em que, morto Perón, Isabelita torna-se refém do brujo Lopes Rega, que baixa a maior repressão com sua Triple A, aliada aos militares. Na escola, os jovens militantes são caçados e mortos, e isso num momento em que, com os hormônios em ebulição, estão tendo de fazer escolhas que não são só políticas. A da dupla de diretores foi contar essa história do ângulo de uma garota, sem omitir os abusos que ela sofria, por ser mulher, dentro do próprio movimiento. Virna e Ardito são originalmente documentaristas, e respeitados. Sinfonia é sua primeira ficção. O filme tem uma primeira parte bem política, com riquíssimo material de época e recriação das mobilizações estudantis dentro da instituição, o medo dos pais, etc. Na segunda parte, o tom torna-se mais intimista, e doloroso. Ana fica dividida entre dois garotos no momento em que a radicalização a empurra para a clandestinidade. Muita gente anda reclamando que o filme fica lacrimogêneo (melodramático?) e que a love story se superpõe à militância. Nesse momento que vivemos – na Argentina, no Brasil -, tenho a impressão de que permanecer no tonus da primeira parte seria uma idealização um tanto disparatada, sem pé na realidade. Nós que amávamos a revolução. Nós que ainda amamos… Mas o mundo mudou, nossos líderes mudaram e se não encararmos isso não sei onde vamos parar, nós que ainda queremos ter um pensamento crítico de esquerda. Acho muito mais forte, e necessário, que façamos o luto das nossas ilusões perdidas, até como forma de superação e recomeço (as ilusões reencontradas?). No final, Isa, a amiga, volta à escuela com a filha e faz aquele minuto de silêncio diante do painel que homenageia os desaparecidos políticos daquele lugar. Faço isso toda vez que vou ao Tucarena, que agora está com a peça do Gabriel Vilela, Boca de Ouro. Tem ali um painel que homenageia estudantes da PUC mortos pela repressão do regime militar. Eu, pelo menos, sinto necessidade de parar e ler seus nomes, ler os textos que dão conta de suas histórias. Olvidar, nunca. Esquecer, jamais. Na sequência passou o óvni de Eliane/Escorel/Betti. Causou sensação quando, no debate, defini o filme assim. Não sabia o que ia ver, não sabia que era uma adaptação de Henry James, muito menos que era aquela história. Um homem que, à espera do acontecimento extraordinário que acredita que vai sacudir sua vida, não percebe nunca o que está perdendo – o amor. A Fera na Selva não se assemelha a nada que o cinema brasileiro ande fazendo/mostrando. Muita gente reclama que nem filme é, e que Paulo Betti e Eliane Giardini deveriam ter feito uma peça. Acontece que eles já fizeram – o texto de James revisitado por ninguém menos que Marguerite Duras (e que informou Luiz Zanin, foi filmado por Benoit Jacquot). Óvni, biscoito fino, objeto não identificado. A Fera na Selva rendeu um dos debates mais interessantes do festival e o retirou um pouco da discussão sobre gêneros. Poderia ter permanecido – o homem não percebe nunca o que salta aos olhos para a mulher. Termina sendo um filme sobre a morte. Há algo de ‘oliveiriano’, sim, de Manoel de Oliveira, nessa construção dramática. Se Paulo (Betti) e seus codiretores queriam causar… Causaram!