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Festival de Gramado (7)/Latinos tiraram meu ‘centro’

Luiz Carlos Merten

22 Agosto 2017 | 18h54

GRAMADO – É impressionante como se corre num festival de cinema. Hoje pela manhã, como não vieram os representantes de dois filmes latinos – o chileno e o colombiano -, achei que teria uma manhã tranquila, somente com o debate dos curtas. Só que os curtas foram ótimos e o debaste sobre O Quebra-Cabeças de Sara, de Allan Ribeiro, e a animação Caminho dos Gigantes, de Alois Di Leo, durou até quase uma da tarde. Almocei correndo e às 2 já estava no palácio dos festivais para ver Desconstruindo Alice Gonzaga, de Betse de Paula, na homenagem à filha de Ademar Gonzaga, criador da Cinédia. Conheço a Alice há não sei quantas anos – desde que fui para São Paulo, talvez, embora ela seja do Rio -, mas o filme me revelou um viés inédito. Tudo o que Alice conta sobre a mãe me pareceu muito forte – e veio enriquecer o debate sobre gêneros, e o empoderamento das mulheres, que está sendo levado nessa edição do festival. A briga de Alice com o pai e a defesa dele dos filmes me tocaram muito. E quando houve o incêndio das películas, com a explosão do nitrato no acervo da Cinédia, dei um pulo na poltrona, como se lá estivesse. O acervo já estava salvo – depois ainda houve uma inundação -, mas o simbolismo daquele incêndio me bateu fundo. Mal tive tempo de colher o autógrafo de Pablo Zurita por seu Road Book del Cine Latino-americano e já estava no hotel, redigindo meus textos para a edição de amanhã do Caderno 2. E agora posto rapidinho, enquanto aguardo telefonemas para entrevistar o diretor Daniel Rezende e Vladimir Brichta, pelo Bingo. Pronto – tive de fazer uma pausa para entrevistar o Daniel. Volto ao festival. Fiquei muito perturbado com o longa de Maite Alberdi, Los Niños. Gostaria que a diretora tivesse estado aqui psaras compartilhar com ela minhas ansiedades. Não é, espero, nenhum tipo de preconceito contras downianos – me dizem que é incorreto chamar assim e se for, sorry -, mas tem a ver com outra coisa. Um pouco com a forma. O filme é encenado, com certeza, mas quanto? E como? O que me perturba é esse choque legal/institucional, que me faz sentir impotente. Pelo que entendi, no Chile, pelo menos, portadores da Síndrome de Down não têm estatuto legal para decidir sobre suas vidas, então toda aquela luta da pareja para se casar e de todas aquelas pessoas para ter independência – um emprego, seu rendimento – me arrasou porque é, de antemão, uma batalha perdida e as personagens são reais. Fiquei arrasado não porque não quisesse saber daquelas histórias, mas porque me senti de mãos atadas – de mão atada – no final. Por mais especial que também seja, me sinto privilegiado, e neste ano, em Gramado, mais que nunca. A questão é como participar dessa luta? Qué hacer? O filme colombiano X 500, de Juan Andrés Arango, que a maioria odiou, veio em parte em meu socorro. Três histórias que remetem à extraterritorialidade, a temas como migrações (e preconceito, desamor, violência etc). Fiquei perturbado por outro motivo, porque não dava liga. As histórias juntavam-se, mas não o título. Fui pesquisar. X500 é um lugar, não sei bem se mítico, que se supõe seja o centro, o umbigo, da América Latina. E eu amei o episódio de Alex, o jovem afro-colombiano. Quando ele faz sua confissão ao irmão, que o segue numa espiral de violência à Cidade de Deus, foi como se eu perdesse meu centro. O punk mexicano de volta ao povoado, a avó e a neta que chegam, num raro momento de paz, a Manila, Alex resgatando o irmão resolveram para mim a questão da territorialidade que ficou à deriva em Los Niños. Me siento como quien se desangra pelo filme de Maite.