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Festival de Gramado (5)/Paulo Autran, senhor da interpretação

Luiz Carlos Merten

21 Agosto 2017 | 17h17

GRAMADO – Acabo de ver, nas homenagens do 45.º Festival de Gramado, o belo documentário de Marco Abujamra sobre Paulo Autran. O Senhor dos Palcos. O título direciona um recorte, o Paulo Autran grande ator de teatro, mas contempla o cinema. Paulo como Diaz em Terra em Transe, como o autoritário militar de O Enfermeiro e em cenas de Uma Pulga nas Balança, de Luciano Salce, que já o dirigira no teatro, na época do TBC. Conheci o Paulo brevemente na época em que fez a primeira peça do Dib (Carneiro), Adivinhe Quem Vem para Rezar?, que ele rebatizou. Quando Dib a escreveu, chamava-se Corpos Presentes e creio que voltará a ser, agora, como romance. Uma editora encomendou e meu amigo já escreveu. Quem leu, amou, e agora é esperar pelo livro. Paulo mudou o título porque achava que ninguém iria ver uma peça com o título de Corpos Presentes. Ele nunca deixou de pensar no público, também, não sei se principalmente,m como caixa registradora. Chega a dizer que, criança, ia muito a teatro com convite, mas agora, como ‘astro’, reclama dos convites. Foi durante a temporada do Adivinhe…? que Paulo descobriu que estava com câncer, mas ele não morreu disso, não. Achei genial o começo. O senhor dos palcos em seu território. à paisana, recitando o monólogo de Marco Antônio em Júlio César. Como César não haverá outro. Nem como Paulo Autran. Gostei muito de certos depoimentos pontuais. Eduardo Tolentino fazendo sua autocrítica. Quando montou Ibsen com Paulo era muito jovem para administrar o peso do choque entre o novo (ele) e o velho (a tradição, Paulo), que era o próprio tema de Solness, o Construtor. Tolentino diz uma coisa linda sobre como a vanguarda alimenta o teatrão, e eu gostaria de acreditar que o mesmo se pode dizer do cinema, embora não tenha tanta certeza.(Alimentam-se no meu imaginário, em todo o caso). Ulisses Cruz fala de Lear, uma peça que o próprio Paulo diz que lhe mete/metia medo. Muito interessante. E atores, lendo declarações de Paulo – sobre como ‘desconstruiu’ o Macbeth de Fauzi Arap. Achei muito ricas as escolhas do Marco (diretor). O próprio Paulo fala do seu método, que era uma ausência de método, entrando no de seus diretores. E lembra como Glauber o escolheu para o papel, embora não diga o que me contou na noite do lançamento de seu livro. Eu, na fila do autógrafo, um monte de gente atrás e o Paulo me dizendo ‘Mais! Mais!’, que era o que Glauber lhe pedia. A direção épica, brechtiana. E terminar o filme com a troca de cartas entre Paulo e Fernanda Montenegro – as cartas lidas por ela – é um achado. Fernanda fala no seu encontro com Paulo – numa novela que fez história, Guerra dos Sexos. Ficamos, nós, o público com vontade de ver as imagens, e elas vêm, durante os créditos finais. Paulo e Fernanda agredindo-se fisicamente, durante uma refeição. Magnífico. Paulo Autran – O Senhor dos Palcos foi produzido pelo Canal Curta para passar na TV, mas está no festival. Em plena era de Netflix, tenho de me acostumar que os filmes possam ir diretamente para outras plataformas e, ao mesmo tempo, quero defender que O Senhor dos Palcos tenha uma vida no cinema.