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Festival de Gramado (3)/E do Uruguai veio uma gema, Mirando ao Cielo

Luiz Carlos Merten

20 Agosto 2017 | 10h49

GRAMADO – Gostei muito do clima do primeiro curta da noite de ontem, O Espírito da Floresta, de Carla Saavedra Brychy, sobre garota que, para provar sua coragem aos dois irmãos, é empurrada por eles para dentro do bosque, supostamente vigiado por um espírito maligno. A menina é um ecanto, mas foi o trabalho de direção, e montagem, na criação de uma estrutura audiovisual progressivamente envolvente, e inquietante, que terminou por me apanhar. Na sequência, veio Mirando al Cielo, do uruguaio Guzmán Garcia, que se autodefiniu no palco como cria de Eduardo Coutinho. Jogo de Cena no Uruguai. Um grupo, muito heterogêneo, inicia o processo de criação de uma peça. O texto fala de prisioneiros – homens e mulheres – e até certo ponto as pessoas estão tentando se libertar das próprias experiências e vivências. O garoto conta como sofreu bullyng dos colegas que debochavam de sua homossexualidade; a mulher abusada pelo pai, após anos de terapia ainda se pergunta se a mãe, que deveria protegê-la, sabia etc. Assim contem muito de Coutinho, o filme também tem dos Irmãos Taviani, e eu confesso que Guzmán García me intrigou, porque nunca havia feito essa ligação (possível?) entre Jogo de Cena e o método de Coutinho, e César Deve Morrer. Chorei, fazer o quê?, de quase desidratar e, mais uma vez, fui levado a reavaliar minha ligação com o legado de Coutinho, grande cineasta, grande documentarista, sem dúvida, mas que não creio que estivesse numa boa fase quando morreu, foi assassinado. Coutinho iria se reinventar, como se reinventou em outros momentos? Nunca saberemos, e eu tenho de admitir, para mim, que a questão me obceca. Me leva a viajar em conjeturas muito loucas sobre as circunstâncias dessa morte, um horror. Tivemos a homenagem ao animador gaúcho Otto Guerra, que recebeu o Troféu Eduardo Abelin – por seu trabalho pioneiro no Rio Grande do Sul (e no Brasil) – e na segunda parte da noite tivemos outro longa concorrente nacional. A crise de um casamento, e a de uma mulher que a vida toda foi confrontada com exigências pesadas – ser forte, ser a melhor, ser liberada na cama, profissional no trabalho e dedicada no lar. Havia gostado muito do filme em Berlim, e ele certamente continua bom, mas o fato de agora saber que Laís Bodanzky e o ex-marido, o roteirista Luiz Bolognesi, estavam em processo de separação, me fez ver, mesmo sem querer, o filme por um outro viés, como um acerto do casal. Afetou minha fruição/avaliação. Vou descer para o debate (estou no quarto). Depois, continuo.