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Festival de Gramado (2)/Minha viagem na mitologia do Matador

Luiz Carlos Merten

19 Agosto 2017 | 18h27

GRAMADO – Carlos Eduardo Jorge, que conduz os debates no Festival de Gramado, tirou a maior onda comigo. Depois de João, o Maestro e Corpo Elétrico, que consegui lincar no meu imaginário em torno ao tema do sexo, surgiu outro filme tesudo aqui na serra gaúcha, e é o faroeste caboclo de Marcelo Galvão, O Matador. Ninguém gostou – falo da crítica. Nós, o público, curtimos. Em Cannes já houve toda aquela polêmica envolvendo a programadora de streaming. A Netflix resolveu blindar-se – 40 minutos de coletiva, apenas, e ainda por cima está selecionando, quando não vetando, as entrevistas. Não seria verdade dizer que amo o cinema do Marcelo. Não entrei no clima de Colegas, que deu ao diretor o Kikito aqui em Gramado – melhor filme e direção -, mas viajei muito na energia sexual de A Despedida, em que Nelson Xavier, com o pé na cova, desdobra-se – língua e dedo – para satisfazer a fogosa Juliana Paes. Isso é que é ser herói brasileiro, não o Bingo, Jesus amado. Justamente, o sexo. Comecei o post falando no assunto, e sigo. A libido é o motor de João, Corpo Elétrico, Bingo – e O Matador. O protagonista precisa da pedra azul, mais valiosa que diamante, para satisfazer sua recém descoberta voltagem sexual. É um tipo meio bronco, mas funciona que é uma beleza matando – e mandando ver no bordel. Cria fama de matador em todo o sertão, e se diverte com as putas, ou com a puta, Soraia. Cabeleira é seu nome e ele foi um bebê abandonado, e criado por um tal Sete-Léguas. Falei, no debate, numa elefantíase do sexo representada nesses filmes e Carlos Eduardo ficou me zoando. Elefantíase do quê? Do sexo, sim. E se a pedra azul for uma metáfora do viagra? Essa ideia não é minha, veio do próprio Carlos Eduardo. Poderia ser, embora devamos estar viajando na maionese. Marcelo foi muito criticado por seu nordestern ser muito ‘espaguete’. Eu me lembrei dos meus ‘Sergios’, Leone e Sollima, e até mais do segundo, por quem tenho uma queda, vocês sabem. Faccia a Faccia e Corri, Uomo, Corri, os dois com Thomas Milian, ator cubano que morreu em março e que fez carreira no cinema italiano. Era belo como um deus, o jovem Tommaso, coisa de Alain Delon, e antes de virar um astro de spaghetti westerns filmou com Mauro Bolognini (A Longa Noite de Loucuras e O Belo Antônio) e Luchino Visconti (era o marido de Romy Schneider no episódio de Boccaccio 70, O Trabalho). Sob toneladas de maquiagem, para parecer sujo e grosseiro, reencontrei Milian/Sollima no personagem de Diogo Morgado. E tem a questão da plataforma. Surgiu o tema filme para cinema, e para outras plataformas. João, o primeiro, e O Matador (o Cabeleira), o segundo. Não importa para qual plataforma o filme do Marcelo foi feito porque, para mim, aquelas cavalgadas e paisagens (o desfiladeiro de pedras), são coisa de cinema. Pode até ser que amanhã já tenha me esquecido do filme, mas duvido. Há um tema do sincretismo, cultural e religioso, um gosto pelo insólito (e pelo sadismo, embora Marcelo negue) e, no limite, é um filme sobre pai e filho, sobre esse filho que busca o pai (Cabeleira atrás do Sete-Léguas) e o filho que humaniza o pai (o menino que tenta humanizar Cabeleira, antes que ele se perca para a pedra demoníaca). Tudo isso e a frase chave do matador. Para exercer a função, ele precisa esvaziar a cabeça. Se pensar no filhote, não mata o porco. E eu ainda não cheguei ao ponto – não disse que O Matador me lembrou o visual de um comic de faroeste da minha infância. Tex. A maneira de usar o quadro. Na HQ, o desenho formava uma espécie de bloco – o pistoleiro e seu cavalo, ou um cactus, a porta vaivém do saloon etc – num grande espaço vazio, e esse me parece o conceito de O Matador. Luiz Zanin levantou uma questão de ordem, ou referência. A relação de Marcelo com o nordestern e o Cinema Novo. O diretor disse que não curte o Corisco de Glauber porque não considera verossímil o movimento de Othon Bastos no quadro, antes de morrer. Marcelo se acha mais ‘naturalista’, mas se há uma coisa que O Matador não é, é naturalista. A história contada evoca o cordel, e toda a interpretação (Cabeleira, o francês e Madame Blanchard, a dona do bordel/Maria de Medeiros) está mais para composição. E pode ser coisa minha, mas o ataque à casa, a morte da mulher e do filho e o incêndio que se segue, recriam uma cena idêntica de Deus e o Diabo na Terra do Sol. O corpo convulsivo, em movimento (transe?). Marcelo é mais glauberiano do que pensa ser.