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Festival de Gramado (1)/Mas esse post é sobre outra coisa…

Luiz Carlos Merten

18 Agosto 2017 | 16h35

GRAMADO – Cá estou, para mais um festival – menos um, como diria Mário Peixoto. Xô! E nesta edição de 45 anos estou sendo homenageado. Sem nenhum ressentimento, não posso deixar de observar que nada como o tempo. Vim ao primeiro, ao terceiro e ao quinto festivais e depois passei mais de dez anos fora de circuito, mesmo quando já voltara a escrever sobre cinema no suplemento de Cultura de ZH, editado pelo Pilla Vares, e na sequência na Gazeta Mercantil Sul e no Diário do Sul. Só voltei a Gramado através do Estadão, e lá estou há 28 anos. 28! Longa vida ao festival. O deste ano promete. Daqui a algumas horas teremos a abertura com João, o Maestro, de Mauro Lima, que já estreou em São Paulo, e no fim de semana dois filmes que já vi (em Berlim) e dos quais gosto muito. Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky, com roteiro de Luiz Bolognesi – e embora seja assunto de foro íntimo deles não posso deixar de registrar quanto me surpreendeu a notícia de que se separaram; me pareciam um daqueles casais para sempre, e não deixam de continuar (na arte)- e o outro, As Duas Irenes, de Fábio Meira. Vim no avião (São Paulo/Porto Alegre) – e no translado do aeroporto à serra – lendo o livro de Lufe Steffen, O Cinema Que Ousa Dizer Seu Nome, da Editora Giostri, com entrevistas que ele fez com diretores que, nos últimos anos, têm realizado filmes que oferecem um mosaico de representações do universo LGBTs. Tenho de confessar que gostei particularmente da entrevista de Marcelo Caetano, autor de O Corpo Elétrico, que estreou na quinta, 17. Ontem! Tenho andado na contramão do Marcelo em outros filmes, mas com esse ele me ganhou por seu retrato de um personagem que me pareceu muito vivo e interessante. O garoto que trabalha numa confecção do Bom Retiro (ou será Brás?) possui uma libido muito intensa, que canaliza para o sexo e o ato de criar, mas sem esperar realmente por reconhecimento ou legitimação. Tenho a impressão, pode ser que me engane, que é algo geracional, ou então ligado a uma ideia de classe. O garoto é proletário e até flerta com o underground, mas não é nenhum marginal. É trabalhador, mas ainda vive a juventude sem compromisso, boiando no mar ou na superfície da própria existência. Puta filme bom. Vai ser um dos meus melhores do ano – de certa forma o meu Boi Neon de 2017. O curioso é que, na entrevista do livro, Marcelo lembra a recepção a Tatuagem aqui mesmo em Gramado e esculhamba com a crítica conservadora que não apenas não entendeu o filme como foi retrógrada etc. Tenho certeza de que, embora sem me citar nominalmente, ele estava pensando em mim, pois até batemos boca. Confesso que Marcelo às vezes me tira do sério com seu discurso do afeto, e não que não seja sensível ao tema. Afeto? Gays contra a ditadura? Gays contra Bolsonaro? Sou meio analista de Bagé. Vou ser chulo, Nesse caso, afeto de c…é r… Tatuagem tem cenas magníficas, nunca neguei, mas Corpo Elétrico me apanhou muito mais. Ainda não consegui cravar crítica nem entrevista no Caderno 2, problema de espaço. Se o post ajudar na divulgação do filme… Lembrem-se. Dependendo dos números no fim de semana, na quinta que vem Corpo Elétrico diminui ainda mais o circuito ou até cai fora. E isso não pode ocorrer.