As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Festival de Gramado (16)/Onde foram parar Magali e o Lucho? Minha inconformidade com os Kikitos

Luiz Carlos Merten

27 Agosto 2017 | 10h16

PORTO ALEGRE – Acabou ontem mais um Festival de Gramado. Menos um. Pela manhã, tivemos os debates sobre os filmes da última noite. A questão da sexualidade – trans – em Tailor, o segredo do cofre no road movie urbano Objeto/Sujeito, do qual gostei muito. E os longas – Pinamar, Pinamar, Pinamar. E o outro argentino (brasileiro), Vergel, que também aborda o luto mas vê a vida de forma diferente. A vida que continua, após a morte. O que Camila Morgado vê da floresta que é seu apartamento. O casal de velhos, as garotas que tomam banho de sol, os meninos que brincam, o pianista. É o mais bonito no filme de Kris Niklison, ou pelo menos foi para mim. E vieram os prêmios. Fecho totalmente com os prêmios da crítica, que diferiram dos Kikitos dos júris oficial e de público. As Duas Irenes, de Fábio Meira, o melhor longa brasileiro; Pinamar, de Federico Godfrid, o melhor latino; e O Quebra-Cabeças de Sara, de Allan Ribeiro, o melhor curta. Depois de minha experiência como jurado em Brasília, 2016, acho muito complicado ficar criticando júris. O importante é tentar descobrir a coerência, e os de Gramado foram coerentes, embora não do jeito como eu gostasse. Como Nossos Pais levou seis Kikitos como melhor longa brasileiro pelo júri oficial – Bio, de Carlos Gerbase, venceu o prêmio do público. Só a equipe do Gerbase, que lotou o palco, já garantiria o prêmio, votando. Seis Kikitos, incluindo melhor direção para Laís Bodanzky e os mais merecidos, melhor ator para Paulo Vilhena e melhor coadjuvante, para Clarisse Abujamra. Adoro Maria Ribeiro, e ela provavelmente vai se aborrecer comigo, mas o maior absurdo do júri oficial, para mim, foi não ter premiado Magali Biff como melhor atriz, por Pela Janela, de Caroline Leone, o que, além do mais, seria um reconhecimento para a maior qualidade daquele belo filme. A coerência, quando falo nela, é que a discussão sobre as minorias – mulheres, gays, trans, afrodescendentes – dominou o debate deste ano e os Kikitos refletem isso. A Gis, de Thiago Carvalhaes, sobre a trans brasileira assassinada em Portugal, foi o melhor curta do júri oficial e Cali dos Anjos, por Tailor, venceu o prêmio de direção da categoria. Espero um dia reencontrar al maestro Isaac Leon Frías para que me explique o que, para mim, foi outro absurdo, maior ainda, do júri estrangeiro. Gosto de Sinfonia para Ana e até elogiei o filme da pareja Virna Molina e Ernesto Ardito, defendendo-o, no blog, da acusação de ‘lacrimoso’ na segunda metade, mas não creio que devesse ter levado o Kikito de melhor longa estrangeiro. O prêmio, de qualquer maneira, é aceitável. Gostei que o prêmio do público, para estrangeiros, tenha ido para o uruguaio Mirando al Cielo, de Guzman García, que todo mundo desdenha por ser um (Eduardo) Coutinho menor. Eu, que ando em fase de revisionismo de Coutinho – sinto -, adorei. Achei indiscutível o Kikito de direção para Federico Godfrid, principalmente depois de ouvir o autor de Pinamar abrir seu processo no debate sobre o filme. Até entendo e pode, eventualmente, ser defensável o Kikito para os jovens atores de Pinamar, mas, do meu jeito de ver as coisas, é inconcebível que o júri tenha dissociado os prêmios de ator e atriz. Aqui vi incoerência. Katerina D’Onofrio levou e Lucho Caceres não. Como? Joel Calero levou o Kikito de roteiro e a força da fala naquele plano sequência está na dinâmica da dupla em La Ultima Tarde. Como ela pode ter sido melhor, e ele não? Talvez porque Katerina estivesse presente para receber o prêmio, foi isso? Ou por que ele tem aquela explosão de violência, no final, e não cairia bem num ano de tanta força às mulheres? Para allà das questões sobre representatividade, Sinfonia para Ana e La Ultima Tarde trouxeram para Gramado, em 2017, uma discussão muito rica sobre a política – no público e no privado. Pinamar aqueceu o festival com outra discussão. Tudo, nada… A arte, a vida… No debate, Federico Godfrid disse de seu temor por duas ou três cenas, incluindo aquela do menino a que me referi, num post anterior. Disse que, se essas cenas não dessem certo, o filme não seria. Mas foi. Espero que isso não me renda inimizades. Gostei de muita coisa, mas o melhor de tudo, em Gramado, neste ano – além de reencontrar amigos queridos e ah, sim, ter sido homenageado -, foi Pinamar. Puta filme. Jean Thomas, compra, pelamor de Deus.