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Festival de Gramado (13)/Alarme falso?

Luiz Carlos Merten

26 Agosto 2017 | 09h32

GRAMADO – Terminou, e com uma nota de surpresa. Depois do belíssimo filme peruano, não acreditava que a competição latina do 45.º festival pudesse me oferecer outra gema, mas veio o argentino Pinamar. Martina, mulher de Carlos Eduardo, o nosso mediador, me disse no jantar que, ao se iniciarem os créditos finais, ele comentou – ‘Merten deve estar chorando.’ E estava. Mas antes de falar seriamente o filme quero dizer que Gramado viveu ontem horas de mobilização. Ingressamos num túnel do tempo e fomos parar – de volta, que horror – nos tempos sombrios da ditadura, quando o festival era uma trincheira de resistência. Houve um encontro de Carlos Diegues com Luiz Carlos Barretão para avaliar o momento atual da produção. Paulo Betti, na plateia, informou que o presidente não prorrogara a Lei do Audiovisual nem o RECINE e, como consequência, a produção estava ameaçada, privada de suas fontes, outro golpe contra o cinema brasileiro. Imediatamente surgiram interpretações. Uma amiga me disse, ao ouvido, que o presidente ia fazer a categoria pagar a conta de todos os ‘Fora, Temer’ do último ano. No clima de confronto que se vive hoje no Brasil até era minha interpretação, também. Mas à noite, e no jantar a que me referi, Paulo Betti e a mulher, passando por nossa mesa, esclareceram que era alarme falso. E ela mostrou o e-mail do Sá Leitão, em que o ministro esclarece que a Medida Provisória que prorroga a lei havia sido suspensa porque havia um erro técnico que a invalidaria. Resolvido o problema da redação, o ministro da Cultura garante que tudo seguirá nos eixos. O interessante é que, nas poucas horas que durou o imbróglio, reencontrando velhos guerreiros – jornalistas, diretores, gente do festival – todo mundo tinha alguma história dos anos 1970 e 80 para relatar. Estava tomando café no bar quando o ex-diretor Esdras Rubim veio falar comigo. Contou-me uma história que envolvia P.F. Gastal, o Calvero, figura mitológica da crítica de cinema do Rio Grande. Gastal, nos tempos em que a Caldas Junior era a potência jornalística do Estado, tinha uma autoridade (moral) tão grande brecava os militares com seu apoio ao evento. Exortei o Esdras a escrever um livro. Ele teme se esquecer de alguém. Eu lhe disse que vale correr o risco. Gramado por quem fez a história. Quem sabe…?