As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Festival de Gramado (12)/O peruano e seus múltiplos desafios

Luiz Carlos Merten

25 Agosto 2017 | 15h12

GRAMADO – Há um mistério da arte. Mistério, espanto? O que faz com que certas obras transcendam, ultrapassando nossa expectativa? Gabriel Vilela é – sempre – um grande diretor de teatro. O maior, talvez, e isso não tem nada a ver com o fato de eu ser seu amigo. Mas o que faz com que seu Boca de Ouro seja genial, como foi sua Tempestade. Ele não deve ter-se aplicado diferentemente a esses projetos, mas algo se passou. Estou querendo chegar a La Ultima Tarde, o filme do peruano Joel Calero. Quando gosto, não meço as palavras. Sempre fui assim. A atriz Katerina D’Onofrio, que aqui está com o diretor, fez uma cara de surpresa. ‘Esse viejo é louco.’ Porque expressei o que restava sentindo. Lucho Caceres e ela não irão para o Oscar, mas não havia, na premiação deste ano, nenhum ator ou atriz que se lhes comparassem. O desafio técnico – um plano sequência de mais de 30 minutos. O casal sai do fórum onde ambos assinaram o divórcio. Por um detalhe, terão de esperar a volta do juiz. Saem a caminhar. São 19 anos sem se ver, desde que ela o abandonou. aquela conversa está entalada na garganta dele, que ainda a ama. Começam conversando generalidades, chegam ao que interessa. Ambos mudaram, e o diálogo expressa as mudanças. Mas o nó continua lá no passado, e as explicações, os atritos, surgem. O plano sequência carrega, em si, um desafio. Caminhar, manter-se na marcação e o mundo externo intervém. Caminhar e interpretar, então… Conversam. Fazem-se confissões. Falam de intimidade, e política. Integraram a militância, ele de forma mais ideológica que ela. Coisas que ocorreram, no passado ganham nova dimensão para o homem. Destemperado, a atinge, mas há logo, na sequência, um abraço. Doloroso, intenso. Havia agressão verbal e física nas cenas de um casamento de Ingmar Bergman, mas não sei se, na época, alguém levantou a agressão como incorreta. Erland Josephsson era o quê? Professor? Todos os professores são violentos? Agora, o sentido da cena ultrapassa a questão do casal. Se ele, que foi ‘terrorista’, faz isso, é uma crítica à esquerda. A ditadura do politicamente correto. Gostei muito – muito! – de La Ultima Tarde. Ainda falta um latino, mas é o meu favorito. Gostei do uruguaio, Mirando al Cielo, vi qualidades no argentino Sinfonia para Ana, mas o peruano…