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Luiz Carlos Merten

28 Setembro 2008 | 13h04

RIO – Ontem, não tive nem tempo de abrir meus e-mails para validar os comentários de vocês. Emendei o necrológio de Paul Newman com filmes, e de cara me quebrei. Corri a um cinema no Leblon para ver ‘Liverpool’, de Lisandro Alonso, e o endereço no ‘Globo’ estava errado. Era em outro cinema. Que m…! Sei que essas coisas ocorrem, mas senti na pele a frustração que qualquer leitor experimenta quando o jornal, que deveria lhe dar a informação, o deixa na mão. Já vi ‘Liverpool’ em Cannes e não me pareceu o melhor Alonso, mas gosto muito do diretor e queria rever o filme antes de falar com ele. Alonso está no Rio, mas depois encontrei o André Miranda e lamentamos que o cara tenha sumido. Ele veio, furou as entrevistas programadas. Cadê o Alonso? Emendei, na seqüência, um filme brasileiro atrás do outro na Première Brasil. A tarde começou com dois programas da mostra Retratos, ‘Nós Somos Um Poema’, de Sérgio Sbragia e Beth Formaggini, recupera a parceria histórica de Pixinguinha e Vinicius de Morais, quando criaram a trilha de ‘Sol sobre a Lama’, de Alex Viany. Achei bem legal, mas fiquei com vontade de saber mais sobre o prpóprio filme, mesmo sabendo que isso, provavelmente, desequilibraria o ‘retrato’. Na seqüência, achei lindo ‘Só Dez por Cento É Mentira’, em que Pedro Cezar supera o duplo desafio de filmar a poesia de Manoel de Barros e biografar o próprio poeta, que se considerava (in)biografável. Pedro Cezar inventou, segundo um conceito do próprio Manoel, a desbiografia. Me tocou muito ver o poeta falar de infância, de cinema – sua declaração de amor pelos (des)heróis de Charles Chaplin é uma maravilha -, mas acho o filme um pouquinho longo. Lá pelas tantas, o filme acaba, recomeça, acaba, recomeça. Mas é bom. Tive a mesma sensação com ‘Palavra (En)Cantada’, de Helena Solberg, outro documentário que deu prosseguimento a ‘Nós Somos Um Poema’ e ‘Só Dez por Cento É Mentira’, na medida em que seu tema é a relação entre poesia e música no Brasil. Helena é diretora de poucos filmes, mas tem uma obra consistente que discute o País, as nossas origens históricas e culturais. ‘Yves, Nós Temos Bananas’ utiliza o mito de Carmem Miranda para discutir as relações entre Brasil e EUA, e ‘Vida de Menina’ discute as relações sociais no Brasil da virada do século 19 para o 20, uma fase de transformação. Adorei o filme da Helena, que tem uma série de depoimentos ótimos. Achei curioso que ela tenha deixado de fora Caetano e Gil – o primeiro ainda aparece numa imagem de arquivo, mostrando que sua birra com a imprensa data do tempo dos festivais da Record, nos anos 60. Ambos são dois falastrões de primeira e o segundo, nosso ex-ministro, é um um teorizador bem pernóstico. Tem aquela do documentário de Georges Gachot sobre Maria Bethânia em que Gil diz que a voz dela se situia na intersecção do… Do quê mesmo? É uma coisa tão pedante que me lembra de ‘Roma de Fellini’, da cena com Anna Magnani, quando a câmera segue a diva naquele beco, o próprio Fellini fica dizendo aquelas coisas todas – a loba romana, a isso e aquilo – e ela bate com a porta na cara dele, tudo muito ensaiado, claro, com um comentário do tipo ‘Vai andar, Federico…’ Gostei muito do que dizem Chico Buarque, Bethânia, Adriana Calcanhoto e José Miguel Wisnik em ‘Palavra (En)Cantada’. Sobre Wisnik, foi como reencontrar na tela do Odeon BR o parceiro com quem tive breves, mas muito instrutivas (para mim), conversas durante a mostra do cinema brasileiro na Polônia. Wisnik se preocupa muito com a ‘intersecção’ do erudito com o popular, mas faz essa ponte com grande habilidade. Só acho que Helena quis abarcar o mundo e o documentário dela também ficou longo, ou me pareceu longo, porque quando fui checar a duração era coisa de 90 minutos, ou menos. Será? O caso de ‘A Rinha’ merece um post à parte. O próximo.

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