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Luiz Carlos Merten

04 Setembro 2008 | 18h17

Nos anos 90, ele teve uma depressão profunda que o afastou durante seis anos da vida artística, mas quando voltou Fernando Torres teve a que talvez tenha sido sua melhor atuação no cinema, em ‘A Ostra e o Vento’, de Walter Lima Jr. Tenho um carinho tão grande pelas duas Fernandas, a mãe, Montenegro, e a filha, Torres, que estou na maior tristeza por elas, porque morreu Fernando Torres. Tinha 80 anos. No teatro, a trajetória dele, sempre ao lado da mulher, grande atriz, inclui a Companhia dos Artistas Unidos, dirigida por Henriette Morineau, o Teatro Brasileiro de Comédia e o Teatro dos Sete, que fundou com Fernanda e também Sérgio Britto, Ítalo Rossi e Gianni Ratto. O Teatro dos Sete ocupa um espaço no meu imaginário, porque algumas das minhas lembranças mais antigas remetem ao Teatro São Pedro, em Porto Alegre, aonde eu ia, com meu primo Milton, para assistir do poleiro, onde o ingresso era mais barato, às peças do grupo. Subíamos pela Rua da Ladeira, a pé, e devia ser inverno, porque me lembro perfeitamente das lufadas de vento que saiam de nossas bocas, enquanto falávamos, Milton e eu, meio ofegantes. Susana Schild, fez um belo perfil de Fernando Torres no ‘Caderno 2’, quando ‘A Ostra e o Vento’ foi para o Festival de Veneza, em 1997. Naquela época, eu fazia a cobertura do evento para o jornal. Tive noites agradáveis, ouvindo o Walter contar histórias de bastidores do Cinema Novo. Na matéria da Susana, Fernando Torres contava que, no começo da carreira, seu sonho era fazer cinema. Outro grande ator de teatro, Walmor Chagas, também tinha esse sonho, conforme declarou em Gramado, ao agradecer seu troféu Oscarito, há coisa de um mês. Fernando contava que era do tempo de J.B. Tanko e que matava aula para ir aos estúdios da Atlântida, na Praça Tiradentes, no Rio, para ver o Watson Macedo dirigir. Ele acompanhou o início da carreira de Roberto Farias, como assistente do Watson. Era amigo de Jorge Ileli, que queria fazer um filme chamado ‘Vidas em Jogo’ e lhe prometia o papel principal, mas o filme nunca saiu. Acho que foi o que fez falta a Fernando Torres no cinema. Ele nunca foi o protagonista, num papel que marcasse (e desse a medida do seu talento). Fernando não fez muitos filmes e os poucos que fez não marcaram tanto a história do cinema brasileiros quanto os de Fernanda (‘A Falecida’, ‘Tudo Bem’, ‘Central do Brasil’ etc). Mas é uma carreira que inclui ‘Engraçadinha Depois dos 30’, do Tanko, com Irma Alvarez e Vera Viana, uma musa dos anos 60; ‘O Descarte’, de Anselmo Duarte; ‘Os Inconfidentes’, de Joaquim Pedro; ‘Marina e Marina’de Luiz Fernando Goulart, que eu amo; ‘Tudo Bem’, de Arnaldo Jabor; ‘O Beijo da Mulher Aranha’, de Hector Babenco; e ‘Inocência’ e ‘A Ostra e o Vento’, de Walter Lima Jr., o primeiro com a filha, Fernanda Torres. Fernando e Fernanda também atuaram em ‘O Redentor’, dirigidos pelo filho, Cláudio Torres. E ele fez muita TV, embora só me lembre agora da novela ‘Laços de Família’, do Manoel Carlos. Fernando nunca teve pudor em admitir – ele desconfiava de si mesmo como ator de cinema; como ator de teatro, ainda se suportava. Mas é inesquecível como o velho e sábio pescador que percebia, melhor do que ninguém, o dilaceramento interior e a poética da personagem de Leandra Leal, garota oprimida pelo pai faroleiro (Lima Duarte) e apaixonada pelo vento. Fernando Torres dizia que depois de ver os filmes ele sempre ficava com a impressão de que não conseguia trasnsmitir pelo rosto, pelo olhar, o que era capaz de sentir. Tinha tanto medo de ficar minimalista para a câmera que não conseguia se expressar – ele achava. Estava enganado. Fernando Torres foi extraordinário em ‘A Ostra e o Vento’, há 11 anos. No ano seguinte, Fernanda faria a Dora de ‘Central’. Não sei de vocês, mas eu devo muito aos dois, pelo que me deram no teatro e no cinema.