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Luiz Carlos Merten

07 Dezembro 2006 | 17h39

Cinco da tarde e eu ainda não tive tempo de postar nada. Eta quinta-feira movimentada, bem como eu gosto. Mas eu entrevistei as duas Fernandas de Arnaldo Jabor, por conta da reestréia de Tudo Bem e Eu Sei Que Vou te Amar amanhã. Os dois filmes também integram a caixa com sete DVDs que a Versátil já colocou nas boas casas do ramo (2001, 2001, 2001) e custa um precinho meio salgado, R$ 199,90, mas, afinal, é a obra inteira do Jabor, incluindo o filme que ele dirigiu no exterior e nunca havia sido lançado no Brasil – Amor à Primeira Vista. As duas Fernandas são ótimas. A Montenegro, poderosa em Tudo Bem, lembra do Jabor pedindo ‘Mais!’ aos atores, para encontrar o tom que queria em seu filme paródico das alegorias que dominavam o Cinema Novo. O Brasil e seus problemas cabiam, em 1978, num velho apartamento necessitado de reforma em Copacabana. Era uma época difícil, só nos restava o delírio de criadores audaciosos como o Jabor, disse Fernanda Montenegro. A outra Fernanda, a Torres, tinha 19 anos quando fez Eu Sei Que Vou Te Amar e me confessou ontem que não tinha a mínima idéia do que estava dizendo, ao vomitar aquele texto que era uma viagem do Jabor, purgando um casamento que acabara (e todas as dores de amor do mundo). Hoje, aos 41 anos, Fernanda Torres diz que, finalmente, entende aquele texto, mas a força do filme está em que Jabor transformava a inocência de jovens como Thales Pan Chacon e ela (que havia acabado de fazer Inocência, do Walter Lima Jr.) em indecência. E a Fernanda contou uma história ótima, com aquele humor maravilhoso que tem. Quando Jabor tirou o filme de dentro do apartamento, tinha aquela cena em que Thales e ela corriam nus na praia. ‘Tem sempre alguém nu no cinema nacional, não é?’, perguntou Fernandinha, ela própria sabendo a resposta. Pintou sujeira, a polícia chegou e Jabor pediu que seus atores se vestissem rapidinho. Tudo isso era novidade para Fernanda Torres e o filme ficou tão visceral que ela foi melhor atriz em Cannes, o mais importante festival de cinema do mundo. Fernanda Torres conta que idolatra Jabor. Ele era mito para ela, que acompanhou, ainda garota, a filmagem de Tudo Bem. As duas Fernandas de Jabor, mãe e filha. Grandes atrizes a quem ele ofereceu grandes papéis – Jabor, aliás, fez de Darlene Glória a sua Geni em Toda Nudez Será Castigada. Tendo começado como crítico de teatro, ele próprio me disse que tinha/tem muito prazer em trabalhar com atores. É a parte mais prazerosa da arte de fazer filmes, resumiu.