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Luiz Carlos Merten

12 Setembro 2011 | 13h08

Luiz Valls me cumprimenta pelo aniversário. Serão 66 anos anos esta noite, 66!, mais que o dobro da idade do suicida de Louis Malle, num filme famoso, mas que não é meu preferido entre os que ele fez. O ‘meu’ Malle, todo mundo sabe, é ‘O Ladrão Aventureiro’, Le Voleur, com Jean-Paul Belmondo. Sinto-me um sobrevivente. Muitos de meus amigos já foram, meus pais morreram com muito menos que isso, mas todos os meus irmãos, que são mais velhos, estão rijos e fortes. O que me incomoda, neste momento, é o flagelo de possibilidade da volta da pneumonia. Tenho de me curar logo para ficar fortinho. No fim do mês, começa a Mostra Cine BH, que inicia o ciclo dos grandes festivais internacionais brasileiros. O Cine BH praticamente emenda com o Festival do Rio e este, com a Mostra de São Paulo. Leon Cakoff ama tanto Alexandr Sokurov, mas este ano sua saúde precária o impediu de ir a Veneza. Veremos aqui o vencedor do Leão de Ouro deste ano, com ‘Fausto’? Tenho ouvido as melhores referências sobre o novo Sokurov e Richard Lormard, que soma mais um grande prêmio ao impressionante currículo de obras-primas das quais faz assessororia, nos maiores festivais, ao me oferecer entrevista com o diretor – infelizmente, não estava no Lido -, me fez saber que considera ‘Fausto’ uma obra de ‘oudstanding beauty’. Sem ver os filmes, fica difícil dizer alguma coisa, mas confesso que não colocava muita fé em ‘Carnificina’, que Roman Polanski adaptou da peça de Yasmina Reza. Não que o filme não possa, e até deva, ser muito bom, mas porque já achei exagerado o prêmio de direção que ele recebeu em Berlim, por ‘Ghost Writer’. Botava mais fé no novo Cronenberg. Em fevereiro ou março, quando o entrevistei por telefone, Vincent Cassel me disse que o filme já estava garantido na seleção de Cannes, mas depois ‘A Dangerous Method’ ficou fora e eu sempre achei que Cronenberg havia desistido da Croisette porque talvez pensasse que teria mais chances em Veneza. ‘A Dangerous Method’ baseia-se na peça de Christopher Hampton sobre a relação de Freud com Jung no alvorecer da psicanálise. O tema, o reencontro do diretor com Viggo Mortensen e o acréscimo de Michael Fasbender ao seu universo de freaks que viram aberrações aos olhos de seus semelhantes, tudo isso me deixa nos cascos, mesmo que não seja cronenberguiano de carteirinha (mas amo ‘Marcas da Violência’ e ‘Senhores do Crime’). Outro filme do Lido pelo qual estou morrendo de curiosidade é o novo de Steve McQueen, após ‘Hunger’. Como o anterior, ‘Shame’ também é com Michael Fassbender, agora no papel de um viciado em sexo. Com a ressalva, já feita, de que não vi ‘Shame’, acreditava mais nas chances de McQueen, homônimo do astro dos anos 1960 e 70. Afinal, ele chegou ao cinema via artes plásticas e se há uma coisa à qual o presidente do júri de Veneza neste ano, Darren Aronofsky, não resiste é a um fricote visual. Ele também é superchegado a uma terapia de choque, vide ‘Cisne Negro’, e por isso apostava em Cronenberg, mas Sokurov ganhou e eu espero que seu ‘Fausto’ esteja mais para ‘Moloch’, ‘Taurus’ ou ‘O Sol’ do que para ‘A Arca Russa’, o único de seus filmes do qual não gosto, e pela ideologia, admito. Tantos bons filmes a caminho, tenho de dar um jeito nessa pneumonia (e na vida). Feliz aniversário para mim!