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Feliz aniversário!

Luiz Carlos Merten

12 Setembro 2007 | 09h02

Pode ser o dia. Estou hoje de aniversário, como se diz no Sul, e a gente fica sensível, mais vulnerável às próprias emoções. Cheguei hoje na redação do Estado e ainda estou sozinho – nem a Leo, minha colega Leonilce Brioto, nem o Bira, Ubiratan Brasil, chegaram e eles também chegam cedo. Ficamos os três, trabalhando, jogando conversa fora e tomando café da máquina (amargo capuccino). Mas já chorei agora de manhã. Na passada para a minha mesa,peguei o Aliás de domingo, que estava jogado sobre um balcão. Estava escrito que eu tinha de ler o belo texto de Sérgio Augusto sobre o dramaturgo Arthur Miller, horrorizado perante a descoberta de que o autor de A Morte do Caixeiro Viajante, As Bruxas de Salem e Depois da Queda negou a vida inteira a existência de um filho com Síndrome de Down, só na morte lembrando-se dele (e o agraciando, em testamento, com um quarto de sua fortuna). Miller foi sempre um símbolo da consciência americana. Crítico do sonho americano, altivo na luta contra o macarthismo, teria uma biografia pessoal irrepreensível, se não fossem essas ‘Novas Páginas da Vida’, como Sérgio Augusto intitulou seu texto, fazendo a ponte com a recente novela de Manoel Carlos. O que fazer? Atirar pedras em Arthur Miller? Destruir-lhe, postumamente, a reputação? De perto ninguém é normal e as reações variam tanto, de pessoa a pessoa, face aos problemas que as afligem. Miller negou o filho, que afastou de casa e internou em instituições. Não queria que a presença do garoto causasse constrangimento à filha ‘normal’, Rebecca, que depois virou cineasta, casou-se com Daniel Day-Lewis e, ao descobrir a existência do irmão, passou a visitá-lo pelo menos uma vez por mês. Arthur Miller errou com Daniel, mas acertou com Rebecca, porque ela poderia ser um monstro de egoismo, e não é. Sérgio Augusto escreve um texto indignado sobre o Miller, mas ele próprio acrescenta, no final, que Daniel, o filho rejeitado, virou, ao que se diz, um homem extraordinário, muito afável, inteligente e bem-humorado. Fiquei pensando que a história que eu queria ler era a do Daniel. Como, com tanta coisa contra, ele virou o que é? Tantos jovens bem nascidos, e amados, perdem-se no caminho. A alguns, como Daniel Miller, a adversidade fortalece. E imagino que ele tenha tido um anjo da guarda. Quem? Sérgio Augusto diz que se lembrou de Evaldo Mocarzel, nosso ex-editor do Caderno 2, documentarista premiado e pai da Joana, que tem Síndrome de Down e virou estrela de TV, na novela Páginas da Vida. Quando soube da história do Miller, Sérgio Augusto conta que a primeira pessoa em que pensou foi o Evaldo. ‘Ele vai ficar horrorizado’, foi o pensamento que lhe veio. Será? Pois o próprio Evaldo sempre diz que Do Luto à Luta foi o filme que ele queria que lhe tivessem mostrado, quando Joana nasceu e ele soube que ela era downiana. Evaldo também teve suas dúvidas. Como não ter? Fez o filme para entender a própria filha (e sua relação com ela). Joana virou um raio de luz na vida dele e da Letícia, sua mulher. Dito assim, parece melodramático, eu reconheço, mas eu também conheço o Evaldo, e sei. Daniel Miller não teve o apoio do pai, mas teve o apoio de alguém. O que faltou ao Arthur Miller, que cedeu a um cruel preconceito, foi um Evaldo em sua vida, alguém que lhe mostrasse que o luto pode virar luta. Tudo isso me veio à cabeça a partir do texto inspirado do Sérgio Augusto. Este post pode parecer um tanto enigmático para vocês, mas eu também sei por que o estou escrevendo justamente neste dia, 12 de setembro, que é o do meu aniversário. Afinal, sou portador de uma deficiência. Se minha mãe – perdi o pai muito cedo – não me tivesse criado daquele jeito, sem estabelecer nenhuma diferença com meus irmãos, sem fazer de mim o ‘pobrezinho’, minha vida talvez tivesse sido diferente e eu não acredito que pudesse ser melhor. Tenho amigos que dizem que sou louco, que me exponho demais no blog. Estou me expondo, mais uma vez. Feliz aniversário para mim.