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‘Fascinado pela Beleza’

Luiz Carlos Merten

27 Fevereiro 2009 | 14h48

Comecei a ler ‘Fascinado pela Beleza’. Na verdade, devia esclarecer – mal comecei a ler. O livro é o terceiro de Donald Spoto sobre Alfred Hitchcock. Depois de analisar os filmes do mestre do suspense e de desvendar o lado escuro – dark side – do gênio, Spoto agora se debruça sobre a relação do gordo mestre do suspense com suas atrizes. Amor e ódio, atração e repulsa. Na apresentação, o próprio Spoto indaga-sae sobre o sentido de se debruçar sobre os podres de um grande diretor. O que isso acrescenta à compreensão de sua obra? A conclusão, imagino, deva vir no final, mas é óbvio que, Hitchcock e Freud tendo sido feitos um para o outro, tudo o que se souber sobre ele ajuda a desvendar os meandros mais secretos de seus grandes filmes. Ainda estou longe de chegar lá, mas Spoto, no abre, deixa claro que vai abordar o famoso assédio de Tippi Hedren pelo cineasta e, imagino, os efeitos que sua recusa produziram sobre ele – da mesma forma que sobre o prosseguimento da carreira da atriz. Do que já li, dá para deduzir o que a obra do artista sustenta. Hitchcock era um monstro de repressão. Podia ter virado o próprio Norman Bates. Virou diretor, o que talvez tenha sido uma forma de sublimar suas taras e fobias. Em vez de matar, fez filmes – grandes filmes que fazem parte da história do cinema. Brinquei com meu colega Ubiratan Brasil, ainda há pouco. Hitchcock era louco de atar, disse. Ele acrescentou – por isso, era gênio. Tudo isso pode parecer folclórico, mas é impressionante como um autor da estatura de Hitchcock é inesgotável. Reconheço que ‘Janela Indiscreta’ e ‘Um Corpo Que Cai’ talvez sejam seus melhores filmes, os mais perfeitos (o segundo, principalmente), mas os ‘meus’ Hitchcocks – aí entra a minha doideira, cada um tem a sua, com certeza – são os de ‘Psicose’ e ‘Marnie, as Confissões de Uma Ladra’. São filmes que não me canso de rever. ‘Marnie’, então, que François Truffaut chamava de ‘obra-prima doente’, possui ‘defeitos’ evidentes – aquelas projeções de fundo, que tanto podem ser horrorosas ou sublimes, as telas tingidas de vermelho etc –, mas me apaixona. O pedido de ajuda de Tippi Hedren, quando Sean Connery a submete àquele jogo com palavras, mexe comigo como o grito de socorro de Peter Lorre, quando cai na armadilha do submundo, em ‘M, o Vampiro de Dusseldorf’, de Fritz Lang. Não por acaso, existem pontes muito interessantes – e possíveis – entre Hitchcock e Lang, que o diga um devoto de ambos, como o diretor francês Claude Chabrol. Coisa de louco! O que mais me impressiona é que, a cada vez, descubro coisas novas em ‘Psicose’ e ‘Marnie’. Como não havia percebido isso, é um espanto atrás do outro. O mistério e o fascínio do cinema.