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Luiz Carlos Merten

12 Abril 2009 | 15h42

PORTO ALEGRE – Mário Kawai lembra que, daqui a pouco, tem, aí em São Paulo, Jerzy Kawalerowicz no ciclo de cinema polonês, no Centro Cultural São Paulo. Lembrei-me agora de que, naquele post sobre filmes de trem, esqueci de ‘Trem Noturno’, que foi meu primeiro Kawalerowicz. Veio depois o cultuado ‘Madre Joana dos Anjos’, com Lucyna Winnicka, baseado no mesmo episódio das freiras possessas de Loudon que inspirou ‘Os Demônios’, de Ken Russell, com Vanessa Resgrave e Oliver Reed. Faz muito tempo que não vejo ‘Madre Joana’, na verdade só vi o filme no começo dos anos 60, quando integrou uma mostra do cinema polonês realizada no Salão de Atos da Retoria da UFRGS, aqui mesmo em Porto. Vi, um após o outro, todas as noites, ‘Kanal’, ‘Cinzas e Diamantes’, ‘Sansão’, ‘A Faca na Água’, ‘Passageira’ – este último a obra-prima inacabada de Andrzej Munk e filme favorito sabem de quem? De Eduardo Coutinho, que ama os ‘rascunhos’ e nisso ele está próximo de Roberto Rossellini, mas isso é tema para outro post. Sempre me impressionou muito que Kawalerowicz, em seu filme, criasse dois espaços, o convento e a taberna, e entre ambos construísse uma espécie de deserto. Essa mesma estrutura espacial bipolar aparece em ‘Faraó’ e me lembro que foi o que mais me impressionou no filme, quando o vi. ‘Faraó’ custou caríssimo – para os padrões do cinema polonês -, mas não se assemelhava em nada a uma superprodução de Hollywood. Basta comparar com a ‘Cleópatra’ de Mankiewicz, um intelectual tão rigoroso (senão mais…) do que o polonês. Como em ‘Madre Joana’, a própria conformação espacial aponta para uma discussão metafísica da questão humana. Existem esses pólos e um grande vazio no centro. Religião, ideologia, no fundo era o que interessava ao autor discutir. Vou ter mais uma chance para assistir a ‘Faraó’, quando regressar a São Paulo. Espero fazê-lo. ‘Madre Joana’ é de quando? 1963? Não é de hoje que penso que Kawalerowicz pode ter influenciado as estruturas bipólares de Glauber – Deus e o Diabo, o dragão da maldade e o santo guerreiro, Diaz e Vieira (em ‘Terra em Transe’). Mas, para isso, o filme tem de ser mesmo anterior a ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’. Estou de saída, não tenho tempo de pesquisar agora. Fica a sugestão para vocês. Vou ao cinema. Ver o quê? Delírios de consumo de Becky Bloom…