Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Família Comencini

Cultura

Luiz Carlos Merten

04 Dezembro 2006 | 18h29

La Bestia nel Cuore ganhou projeção internacional no ano passado, quando o longa de Cristina Comencini substituiu o filme que a Itália havia indicado, inicialmente, para concorrer ao Oscar. O filme em questão, Violação de Domicílio, de Saverio Costanzo, foi desqualificado sob a alegação de que não era falado em italiano e, portanto, não poderia representar a Itália no Oscar de melhor filme estrangeiro. Talvez tenha sido um pretexto – a violação de domicílio do título ocorria numa linha tênue da fronteira israelense, quando o Exército do país ocupava casas de palestinos para prevenir ataques do terror. La Bestia nel Cuore, agora retitulado A Fera no Coração, passa hoje no Festival do Cinema Contemporâneo Italiano, às 19 horas (daqui a pouco) e às 21h30, no Cinemark Iguatemi. Os temas não deixam de ser polêmicos – homossexualismo feminino, abuso infantil –, tudo isso dentro de um imbroglio que envolve segredos de família e mulher em crise porque descobre estar grávida de um marido infiel. Aliás, esta é só a primeira de uma série de descobertas que afligem a personagem de Giovanna Mezzogiorno, que ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza do ano passado. Apesar da ousadia de temas, o filme de Cristina não arrisca muito, investindo numa narrativa palatável, com excesso de explicações para não deixar a menor dúvida ao espectador. Não desanime por isso. Cristina é uma personalidade interessante do novo cinema italiano. Pertence a uma família consagrada de artistas. O pai é Luigi Comencini, grande diretor italiano de comédias, poeta da infância e autor de um Casanova (interpretado por Leonard Whiting em 1969) superior ao de Fellini. Pessoalmente, considero Lo Scopone Cientifico, que ele fez em 1972, com Bette Davis e Silvana Mangano (e que estreou no Brasil como Semeando a Ilusão), uma obra-prima. Cristina é irmã da também cineasta Francesca Comencini, que andou pelo Brasil, acompanhando o Forum Mundial Social, quando se realizava em Porto Alegre. Francesca realizou um filme militante do Forum, Un Altro Mondo È Possibile, sobre o jovem italiano morto nos protestos de Gênova, contra o G8, em 2001, que demonstra que emocionante pode ser, sim, critério de avaliação estética. Enquanto a irmã é combativa e militante, Cristina tenta fazer sua revolução mais interiorizada. O problema é que ela não ousa muito. Trabalha um material explosivo, mas baixa o tom, com medo de chocar. E isso limita a força de seu trabalho.