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Luiz Carlos Merten

06 Junho 2011 | 14h15

Cheguei de volta ontem a São Paulo. Almocei (tarde) com minha filha e genro e depois emendei uma sessão atrás da outra. A de ‘O Homem do Lado’ estava bem cheia e o público, pelo visto, gostou mais do filme argentino de que eu. A dupla de diretores, cujos nomes não lembro, parte de uma situação potencialmente interessante.  Para mim, que estudei arquitetura, o fato de o filme se passar na famosa casa que Le Corbusier projetou em La Plata – cidade planejada que visitei diversas vezes e que me fascina por seu traçado urbano – ainda acrescenta um atrativo especial (o plus a mais de que fala Daniel Filho), mas a tragédia daquele homem medíocre e, mais do que medíocre, covarde, tal como é contada (como farsa), me deprimiu além da conta. Aqui ó que eu vou ao cinema para me deprimir, ou me achar superior a gente tão pequena (de mentalidade, apesar do aparentemente chique como vivem). O desafio era fazer um filme crítico daquela m… toda mas que não me encarcerasse, como espectador, naquela situação absurda, e com aqueles personagens. Embora bem feito, o filme me decepcionou muito. Aguardem por ‘Las Acacias’, que vi em Cannes e aquilo, sim, é um grande filme. Revi na sequência ‘Um Lugar ao Sol’, de Gabriel Mascaro, que usa os arranha-céus da orla do Recife não para fazer demagogia social, contrapondo pobres e ricos, mas para incorporar uma discussão muito rica sobre a ética do documentário. No ano passado, no Festival de Tiradentes, o grande tema de discussão foi o ardil de que se valeu o diretor para penetrar na intimidade daquela gente rica, e a forma como usou e montou seus depoimentos. É curioso, mas de alguma forma a ficção de Mariano Cohn e Gaston Duprat (pesquisei os nomes dos diretores argentinos) de alguma forma dialoga com o documentário do Recife, não pela verticalidade, mas por essa ideia de uma elite que teme ser invadida pela vulgaridade ao redor (e que, no processo, expõe a própria fragilidade). É uma pena que o espectador paulistano, que assiste ao filme da nova distribuidora de Sílvia Cruz, a Vitrine Filmes, não possa reproduzir a experiência do público de Tiradentes. No festival mineiro, assistimos, na mesma noite a ‘Um Lugar ao Sol’ e a outro documentário (ensaio poético?), ‘A Alma do Osso’, de Cao Guimarães, com aquele ermitão que vive numa gruta no interior de Minas. Em ambos, a ricaça mais insuportável da face da Terra e o despossuído que prescinde de tudo o que é importante para a outra dizem exatamente a mesma coisa – ‘Acima de mim, só Deus’ -, mas a fala dele termina passando um sentido místico e até religioso, uma espécie de elevação, que a fala da outra não tem. Fechei minha noite assistindo a ‘O Poder e a Lei’, que Brad Furman adaptou do best seller de Michael Connelly, com Matthew McConaughey no  papel do ‘Lincoln Lawyer’. De novo pode-se fazer uma ponte entre a burguesia recifense ao sol e o advogado que faz tudo por dinheiro e que descobre que caiu numa roubada, uma cilada, ao aceitar caso de assédio (e violência) sexual. Não sei se eu é que sou maluco, mas quando vejo os filmes, independentemente de gêneros, estilos, procedências e formatos, fico sempre tentando fazer essas conexões. Pode ser uma deformação profissional, mas é a minha forma de me apropriar dos filmes e fazê-los meus. Acreditem, mas, com tudo aquilo que ‘O Poder e a Lei’ possa ter de fórmula – o filme de tribunal -, Brad Furman me intrigou (e instigou) mais do que o filme do autor argentino. Mas ou me engano muito ou Silvana Arantes já me cantara a bola de que era um falso brilhante. Aliás, onde anda a minha amiga? Tão boa, a Silvana…