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Luiz Carlos Merten

01 Setembro 2011 | 23h51

Mauro Brider pergunta se vou assistir a algum filme da retrospectiva de Vincente Minnelli no CCBB e acrescenta que ele está muito afim de ver ‘A Cidade dos Desiludidos’. É a sequência de ‘Assim Estava Escrito’, The and the Beautiful, que Minnelli e o produtor John Houseman haviam feito dez anos antes. O original é sobre os bastidores de Hollywood, na continuação Hollywood transferiu-se para o Tibre, isto é, Roma. O diretor Kirk Douglas e o produtor Edward G. Robinson assistem a um filme antigo e deixam escapar a frase – ‘Como éramos bons!’ O filme dentro do filme, do tempo em que eram bons, é justamente ‘Assim Estava Escrito’. Meu amigo – e mentor – Jefferson Barros amava Minnelli e o colocava no seu panteão dos maiores, com Luchino Visconti, Joseph Losey, Jean-Luc Godard e sempre me esqueço quem era o quinto favorito dele. Jefferson rezava pela cartilha de ‘Cahiers du Cinéma’. Nos anos 1950, a revista colocou o pai de Liza nas nuvens. Minnelli era um autor pelo qual valia lutar e que era preciso impor. No fim dos anos 1970, revisando a obra do diretor, a mesma ‘Cahiers’ – mas com outra direção de redação – chegou à conclusão de que Minnelli era um ‘falso autor’. De minha parte, sempre gostei muito de Minnelli, e mesmo que ele não seja um dois meus cinco, ou dez, ou mesmo 15 mais. Me agrada a sua versatilidade, a facilidade com que passa do musical ao drama e à comédia, sempre fiel à sua visãson feérica de mundo. Calderon dizia que a vida é sonho. Minnelli concordava, mas a vida é um sonho do qual, no seu cinema, é preciso acordar, sob o risco de virar pesadelo. Seus personagens são preferencialmente artistas em choque com o mundo – escritores, muitas vezes, pintores, quase sempre. Valeria rever os musicais dos anos 1940, com Judy Garland, com quem foi casado – ‘Agora Seremos Felizes’, ‘O Ponteiro da Saudade’, ‘O Pirata’. Nos (19)50, ele ganhou duas vezes o Oscar de melhor filme por musicais, ‘Sinfonia de Paris’ e ‘Gigi’, mas apesar do balé final do primeiro e dos passeios ‘proustianos’ no Bois de Boulogne do segundo, fecho com Santiago, o mordomo da família Salles, e acho ‘The Band Wagon’, A Roda da Fortuna, o maior de seus filmes cantados e dançados. Fred Astaire e Cyd Charisse avançam pelo Central Park. Caminham e, de repente, sem que o espectador perceba, estão dançando. A elegância de Fred Astaire! (As pernas de Cyd Charisse!) Minnelli fez todas aquelas comédias – ‘O Papai da Noiva’, ‘O Netinho de Papai’ -, mas a minha favorita é ‘Papai Precisa Casar’, com Ron Howard, menino, na pele de Eddie, que precisa aprovar a namorada de seu pai viúvo, Glenn Ford. Eles estabelecem um código que passa pelos olhos do garoto, que exprime seu desagrado fazendo aquelas caretas. E como Stella Stevens era divertida! Sobram os dramas de Minnelli – ‘Sede de Viver’, com Kirk Douglas na pele de Van Gogh (e Anthony Quinn como Gauguin), ‘Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse’, o vermelho e o verde e aquele assalto final à cidadela dos nazistas. O melhor drama de Minnelli, que vocês todos deveriam ver em romaria, é ‘Deus Sabe Quanto Amei’, Some Came Running, com Frank Sinatra e Shirley Mac Laine, à espera do emocionante gesto final de Dean Martin. Mas eu, pessoalmente, espero rever os melodramas de Minnelli – ‘Chá e Simpatia’, ‘Herança da Carne’, em que George Peppard, como o meio irmão da banda podre da família, tenta desestabilizar o filhinho de papai Robert Mitchum, George Hamilton. Minnelli começou como cenógrafo e figurinista, atingiu seu apogeu na Metro, quando a marca do leão permitiu ao produtor Arthur Freed montar sua unidade para a realização de musicais. A consolidação do gênero liga-se ao uso da cor e ao desenvolvimento da cenografia, duas coisas em que Minnelli foi sempre supimpa. Ia ao Rio no fim de semana, para a Bienal do Livro, prestigiar as leituras que Gabriel Villela, com assistência de Dib Carneiro, preparou. No domingo, Elba Ramalho lê João Cabral de Melo Neto, ‘Vida e Morte Severina’, coisa mais chique. Se não for, e estou desistindo – vou deixar para o fim de semana que vem -, ninguém me segura e eu vou ficar (re)vendo Minnelli no CCBB.