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Cultura » Falemos sério – de comédia

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Luiz Carlos Merten

23 Janeiro 2007 | 10h58

Estou cada vez mais apaixonado por um livro que comprei no Uruguai. Vou fazer campanha para que alguma editora editora o lance também no País. O livro é Habíamos Amado tanto a Cinecittà, de Nestor Tirri, com prefácio de Ettore Scola. A editora é a Paidós, de Buenos Aires. Tirri é um crítico argentino importante, com passagens pela imprensa européia e pela direção cultural do Istituto di Cultura Italiana da Argentina. Ele começa analisando o estúdio que Mussolini criou para fortalecer a estrutura industrial do cinema italiano (e que foi usado como parte de um projeto político e ideológico dos fascistas) e depois analisa o neo-realismo, as transformações ocorridas nos anos 1960 a 80 e a atualidade do cinema peninsular. Não quero ser arrogante, mas em geral não aprendo muito com os livros de cinema que tento ler. São muito reconceituosos e, em geral, superestimam a própria inteligência. Com Tirri, estou aprendendo a cada página. É incrível a capacidade de informação que ele possui. E suas audácias são muito interessantes. Por exemplo – ele pega um obscuro filme dos anos 60, Fantasmas em Roma, de Antonio Pietrangeli, e vê nele uma espécie de pioneiro da crítica à globalização que hoje domina as economias mundiais, incluindo a do cinema. Pietrangeli! Quando ele morreu, seu último filme foi concluído por Valerio Zurlini. Nunca mais havia pensado em Pietrangeli, até porque seus filmes sumiram, mas agora não é só Tirri que o resgata. Scola, que trabalhou com ele, também assume a influência de Pietrangeli. Falar do livro de Nestor Tirri independe de ‘gancho’, como se diz em linguagem jornalística (alguma coisa que torne a reportagem atual e necessária), mas até que tenho o meu gancho para o post. Um capítulo exemplar do livro chama-se Parliamo sul Serio, Falemos a Sério, e é sobre a comédia à italiana. Nele, encontram-se análises de Monicelli, de Risi e Pietro Germi. Monicelli vai às origens da comédia na Itália. Vai a Plauto, passa por Ruzzante, na commedia dell’arte, e por Maquiiavel para concluir que a essência da comédia italiana consiste em fazer rir do que não é motivo de riso. A dor, a morte, o sofrimento, a fome, a guerra, a doença, a solidão – é disso que tratam as grandes comédias dele, Monicelli, e também as de Risi e Germi, entre outros. Monicelli conta quais foram seus mestres no cinema – Billy Wilder e, surpresa!, René Clair, de quem ele faz uma análise muito original, dizendo que o diretor francês, que começou na vanguarda e depois foi subestimado pela nouvelle vague, era mestre em explorar, com elegância, o macabro contido em todo cermonial social (enterros, casamentos etc). Tudo isso me vem porque ontem à noite fui ver A Grande Família. Vou até rever, porque tive uma sensação muito estranha. Nunca vi um filme cujas partes, isoladamente, sejam tão atraentes, mas cujo resultado seja tão pífio. O roteiro é legal, com três diferentes versões da história (e todas giram em torno ao macabro monicelliano, que o próprio Monicelli cristalizou genialmente em Parente É Serpente), a produção é cuidada (embora tenha achad exagerada a breguice dos figurinos anos 70), o elenco é ótimo (Nanini e Marieta Severo são hors concours; adorei Andréa Beltrão e o Lúcio Jr.), mas não dá. Achei o filme no limite do insuportável. Foram 100 minutos longuíssimos, para mim. Um problema de ritmo, de tom. Um descompasso entre a ambição do conceito e a realização. Não vejo muito o seriado. Devo ter visto um ou dois episódios, mas eles eram mais espontâneos na sua simplicidade, mais diretos. Já não havia gostado muito do filme anterior de Maurício Farias, O Coronel e o Lobisomem, mas aqui, pela própria natureza do material, confesso que minha decepção foi maior. Espero, mesmo assim, que A Grande Família faça sucesso de público. O cinema brasileiro precisa de blockbusters para melhorar seus números. Como não acredito que os filmes de que gosto – O Cheiro do Ralo, por exemplo – possam ser estouros de bilheteria, o negócio é torcer por A Grande Família. Afinal, já dizia Paulo Emílio Salles Gomes, mesmo o pior filme brasileiro…