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Falando da chuva com Agnès Jaouï

Luiz Carlos Merten

08 Julho 2009 | 10h34

Havia encontrado Agnès Jaouï em janeiro, em Paris, nos Encontros do Cinema Francês. Jean-Pierre Bacri e ela. Haviam sido ótimos, falando sobre ‘Parle-Moi de Pluie’, o novo filme que escreveram, no qual atuam e que ela dirige. Agnès está em São Paulo. Veio para a pré-estreia, que ocorre hoje à noite no HSBC Belas Artes. Agora pela manhã, ela dá coletiva. Conversamos ontem, mais de uma hora, no final da tarde, empoleirados nos banquinhos do café no lobby do conjunto de salas. Já tomei café ali, mas sempre rapidamente. André Sturm, proprietário do espaço, que me desculpe, mas é um dos lugares mais barulhentos de São Paulo. Agnès tomou cada susto – com os estouros lá fora – que, numa hora, pensei que fosse infartar. Mas ela é ótima, com seu cinema de observação humana e social. ‘Parle-Moi de Pluie’ – o título vem de uma canção – nasceu do desejo de Agnès e Jean-Pierre de trabalhar com Jamal Debbouze, de fazer humor e falar de… política, um tema cada vez mais central na França de Nicolas Sarkozy e Carla Bruni, que a imprensa de lá chama de ‘Pompadour do Elysée’ (o Eliseu, palácio de governo). ‘Parle-Moi de Pluie’, Fale-me de Chuva, recebeu no Brasil o título de ‘Enquanto o Sol não Vem’. Agnès conta que é muito sensível ao tema da chuva, à melancolia dos dias cinzentos e chuvosos, como são muitas vezes os dias de outono/inverno na França. Ela falava e eu me lembrava de Marlène Jaubert, cuja personagem se chama justamente Mélancolie em ‘O Passageiro da Chuva’, de René Clément. Conversei bastante com Agnès sobre Alain Resnais. Falamos em português e francês. Ela tem uma doméstica de origem portuguesa e se ensaia na língua, às vezes se enrola, mas até isso tornou a entrevista divertida. Agnès e Jean-Pierre escreveram dois filmes para Resnais, ‘Smoking/No Smoking’ e ‘On Connait la Chanson’. Me encanta essa maneira que Resnais tem de ser rigorosamente autoral filmando, com toda fidelidade, roteiros que não escreve (mas prepara/orienta nos mínimos detalhes). É um tópico muito interessante para conversar com Agnès, que acha que a autoria de Resnais, a sua assinatura como metteur-en-scène, passa muito pelo som. Ela diz que o som, de resto, é fundamental em seus filmes. Som direto, captado por um engenheiro que acha bárbaro e cujo nome me deu, mas esqueci. Guardei, em todo caso, o da mulher dele, Andréia, que é… brasileira. Enfim, foi um fim de tarde legal, de boa conversa. O filme estreia dia 17, na próxima, não nesta sexta-feira. Vamos voltar a ‘Parle-Moi de Pluie’.