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Luiz Carlos Merten

04 Julho 2007 | 13h51

Assisti outro dia no Canal Brasil a um especial sobre o Festival do Cinema Brasileiro de Miami. Quer dizer – vi parte do programa, com os agradecimentos de Marília Pêra e Falabella, que foram premiados no evento por Polaróides Urbanas. A história desse filme acho que renderia um filme à parte. Até já perdi a noção do tempo. Teria de ir ao arquivo do Estado para descobrir quando fui entrevistar o Falabella, que veio a São Paulo lançar o projeto. Faz um tempão. Tinha até me esquecido do Polaróides quando Paula Barrreto, no Festival de Salônica, no ano passado, me falou da retomada do filme e me disse que estava legal. Polaróides é um dos filmes brasileiros que prometem arrebentar na bilheteria no segundo semestre. Mas eu estou fazendo este post sobre Falabella na verdade é para falar sobre outra coisa. Mesmo quem não gosta dele vai ter de engolir o cara, porque ele faz Júlio César na Cleópatra de Júlio Bressane. Encontrei-me ontem no Rio com Rodrigo Fonseca e ele somou a dele às N vozes que já me disseram que o filme do Bressane, fotografado pelo Walter Carvalho, está maravilhoso. Bressane deve estar tentando colocar sua Cleópatra em Veneza, o que não deve ser difícil, pois aquele festival tem um caso de amor com ele. Bressane não concorre ao Leão de Ouro, mas tem espaço cativo nas mostras palalelas de Veneza, que privilegiam a experimentação estética. Ouço dizer que Alessandra Negrini – que faz as gêmeas de Paraíso Tropical – está linda, mas quem rouba a cena é o Júlio César de Falabella. Bressane é um erudito que flerta com a vulgaridade. Ela sempre aparece em seu cinema por meio do deboche que caracteriza a participação de alguns atores. Em Cleópatra, pelo que me contam, o deboche fica por conta de Falabella (e ele é bom nisso). Bressane busca transcodificações em seu cinema. Como transformar livros em filmes é uma questão que o fascina. E ele é sempre muito interessado pela palavra. Mankiewicz construiu sua Cleópatra em torno ao tema da palavra. Ele teve tantos problemas no set, por causa do romance ‘proibido’ de Elizabeth Taylor e Richard Burton, que desenvolveu verdadeiro ódio pelo filme. Referia-se a Cleópatra como ‘aquele filme’, sem nunca citar o título. O espectador e o crítico, que não vivenciaram os problemas do grande Joseph, podem apreciar o resultado. Rex Harrison/Júlio César é a encarnação do grande homem, o homem excepcional, que domina a palavra e comanda a ação. Burton/Marco Antônio possui a palavra, mas é fraco como guerreiro, o que o torna, na construção dramática daquele épico, o demagogo, por quem se apaixona a rainha do Nilo. Roddy McDowall/Otávio possui a força e não a palavra, o que faz dele o candidato a ditador. Colhida nos embates entre todos esses homens, a Cleópatra de Liz, qual Cinderela do Nilo, é elevada ao plano dos deuses com Júlio César e reduzida a mortal com Marco Antônio. A ambição a impulsiona. O amor a destrói. Muito interessante. Onde entra agora a palavra na Cleópatra de Bressane? E Falabella como Júlio César? Estou muito curioso para ver o filme. Volto ao Falabella. O cara está num filme miúra, de um dos mais exigentes autores do cinema brasileiro, e está em outro filme com vocação para blockbuster. Pode parecer esquizofrênico, mas promete.