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Luiz Carlos Merten

04 Novembro 2009 | 16h18

Fui ao médico hoje pela manhã e, de volta para o jornal, passei pelo centro. Naquela ruinha ao lado do teatro Municiopal tem uma loja de discos que sempre tem um display de DVDs à venda, em geral westerns. Estava sem dinheiro na hora – na verdade, estava indo para o banco para poder pagar o táxi para o jornal -, e por isso não comprei. Depois, esqueci. Havia à venda, por R$ 9,90, o DVD de ‘Gringo’, o cultuado ‘Quién Sabe?’, de Damiano Damiani, com Gian-Maria Volontè e Lou Castel, de 1966. Na segunda, já contei que, ao visitar a Livraria Cultura do Shopping Pompéia – enquanto esperava por uma sessão da Mostra -, encontrei verdadeiras preciosidades na estante de westerns em DVD. Clássicos de Raoul Walsh (‘Pacto de Honra’/Saskatchewan) e Gordon Douglas (‘Resistência Heróica’), que nem sabia que haviam sido lançados, além do poderoso ‘A Última Caçada’, de Richard Brooks, com Robert Taylor e Stewart Granger, todos dos anos 1950. Encontrei também um spaghetti que não comprei porque, tolamente, não queria ficar carregando o DVD, mas agora me arreperndo, porque daria um belo duplo para ver em casa, com o “Gringo’ – ‘Quando os Brutos Se Defrontam’ (Faccia a Faccia), de Sergio Sollima, de novo com Gian Maria Volontè e agora Tomás Milián, de 1967. Não sei se vocês se lembram do jovem Milián, um cubano que fez carreira no cinema italiano, trabalhando com Mauro Bolognioni (‘A Longa Noite de Loucuras’/La Notte Brava) e Luchino Visconti (o episódio ‘O Trabalho’, de ‘Boccaccio 70’). Tomás Milián faz um pistoleiro pérseguido por sua fama e ferido no western de Sollima. Ele encontra o Professor (Volontè), um intelectual que se cansou da vida na cidade e tomou o rumo do Oeste, em busca do novo mundo em construção. O professor socorre o bandoleiro, mas entre eles se estabelece uma relação de projeção – e transferência -, seguindo a qual Volontè vira um bandido sanguinário e Milián, assumindo sua consciência, tem de enfrentá-lo no duelo final. Volontè já estava dando sua guinada para virar o ator fetiche dos grandes filmes políticos de Elio Petri. Em ‘Gringo’ (Quem Sabe?), ele faz El Chuncho, meio irmão de Santo (Klaus Kinski) e ambos agem na fronteira mexicana, em plena revolução, o que dá ao filme o formato que mais de um crítico chama de ‘Zapata western’. Damiani, que faria mais tarde sua série com Franco Nero (‘Confissões de Um Comissário de Polícia ao Procurador da República etc), discute um tema que estava na moda nos anos 1960, e prosseguiria nos 70, qual seja, a inteervenção norte-americana na América Latina, apoiando golpes militares de direita. Para isso, ‘Gringo’ apresenta um terceiro personagem, um gringo misterioso, interpretado por Lou ‘de Punhos Cerrados’ Castel, que carrega uma bala de ouro – para matar quem? Se você ainda não sacou sugiro que corra à loja do centro para comprar o spaghetti western de Damiani, que tem trilha de Bacalov, uma trilha meio operística, como costumavam ser a dos gênero, especialmente as de Ennio Morricone para Sergio Leone. Estou aqui viajando. Volonté era extraordinário. Seus delírios, sob o efeito da droga, em ‘Por Uns Dólares Mais’ – o personagem chama-se El Índio -, já antecipavam quanto Leone era grande (em 1965). Claro que os ‘críticos’ ainda não sabiam, a maioria nem via Leone. Eu vioa tudo… ‘O Êxtase do Ouro’, o que é a trilha de Morricone em ‘Per Qualche Dollari in Più’? Maravilha…