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Façam bom proveito

Luiz Carlos Merten

13 Junho 2014 | 10h17

Não paro de pensar no jogo de ontem como num épico. Neymar e Oscar foram seus heróis, e o Marcelo, o que foi? Não me lembro de nenhum gol contra em jogos da seleção, e isso é uma coisa que vai acompanhar esse cara. Olhava ontem o jogo e já divagava. Pensava no Marcelo como um personagem trágico, uma alma danada em busca de segunda chance, como o Lord Jim de Joseph Conrad e Richard Brooks. Já pensaram que tragédias se a seleção não tivesse virado o jogo? Algumas histórias têm rondado minha cabeça nos últimos dias. Maria do Rosário Caetano me mandou, via Dib Carneiro, um e-mail dando conta de incidente ocorrido no Rio, durante a pré-estreia de A Primeira Missa. Houve problemas com o arquivo de som, Ana Carolina reclamou, disse que o Brasil anda para trás ou coisa que o valha. Carlos Alberto Mattos, na plateia, lhe retrucou para não confundir a situação da sala com o País e depois de ver o filme acusou a diretora de ser ressentida, definindo o filme como panfleto pseudo-histórico e chanchadinha metalinguistica. Anos atrás, integrei uma comissão da Petrobrás num concurso de roteiros. Nunca li tanto roteiro na minha vida, e olhem que não gosto de ler roteiros). Roteiros são páginas mortas, como dizia Michelangelo Antonioni. O que lhes dá vida é a mise-en-scène. Ana Carolina concorria com A Primeira Missa e não foi selecionada. Eu adorava o projeto dela, como também adorava outros dois – A Festa da Menina Morta, de Matheus Nachtergaele, e um roteiro nunca filmado de Inácio Araújo, uma comédia rohmeriana sobre relacionamentos. Matheus não tinha experiência de direção e foi descartado de cara. Depois, ele fez o grande filme que vocês sabem. Inácio, acho que nem chegou a ser levado em consideração, e Ana Carolina também foi chutada porque o roteiro não era detalhado. Era muito mais uma carta de intenções. Nossa comissão fez uma seleção acurada, sem discriminar miúras nem blockbusters. Os filmes foram feitos, muitos saíram bons e alguns, muito bons. Mas a rejeição daqueles três sempre me doeu. Inácio desistiu do seu filme e eu sempre penso como teria sido. Ana Carolina perseverou e, sem dinheiro, foi mudando o projeto até torná-lo viável no formato da chanchadinha que irritou Carlos Alberto Mattos. Muitas gente já me falou do ressentimento que Ana passa no filme, mas eu penso, cá comigo, que ele é duplamente justificado – pelo que ela penou para concluir A Primeira Missa e porque ela tem consciência disso e, dramaturgicamente, precisa purgar o sentimento negativo para chegar ao deslumbrante – porque é deslumbrante – final de seu filme. Sobre o esporro da Ana… Estou lendo as provas do livro de memórias de Cacá Diegues, que será lançado em julho. Vida de Cinema. Cacá fala das filmagens de Joanna Francesa, e de como foram difíceis para Jeanne Moreau. O calor, o isolamento, a barreira da língua. No último dia, Mademoiselle Moreau pediu uma Coca-Cola ao garoto da produção. Ele disse que não tinha. Ela surtou. Deu um esporro nele, mas, como diz Cacá, o esporro era em todo o mundo, e no diretor. Jeanne foi-se sem filmar o último plano, que foi improvisado pelo cineasta. Depois, ela se desculpou com Cacá numa carta linda, que ele guarda até hoje. De noite, foi a vez de o garoto da produção surtar. Ele cobriu seu corpo com merda, de certo por achar que era o que era (ou merecia). Achei essa história tão triste, tão dolorosa, que as lágrimas me vêm só de escrever. O que houve com o garoto? No meu imaginário, as três coisas juntaram-se. Marcelo, Ana Carolina e o incidente de Joana Francesa. Façam o proveito que quiserem dessas histórias. Ou não façam nenhum. Só espero ver o Marcelo, guerreiro, dando a volta por cima.