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‘Faça-se a luz’

Luiz Carlos Merten

30 Janeiro 2007 | 15h26

Há um detalhe tão sutil, aparentemente tão sem importância, que a maioria do público poderá até nem perceber. Numa cena de Rocky Balboa, Stallone, de volta à pele do pugilista que o consagrou, instala uma lâmpada na porta da mulher que conheceu quando garota e agora vive meio à deriva. Ele diz – ‘Let there be light’. Cinéfilo de carterinha sabe que esse é o título do famoso documentário que John Huston fez nos anos 40 e que foi proibido pelo Exército dos EUA (uma raridade na tradição de liberdade de expressão que caracteriza o país). E não é que, com a idade, Sylvester Stallone ficou um cara decente? A simples frase de Rocky/Stallone – ‘Faça-se a luz’ – encerra uma homenagem do ator e diretor ao melhor cineasta com quem trabalhou (mesmo que tenha sido no pior filme de Huston – Fuga para a Vitória). Há outra homenagem (a John Ford) quando Rocky, seguindo o exemplo de John Wayne em Legião Invencível (She Wore a Yellow Ribbon), senta-se no cemitério para conversar com a mulher que morreu. Talvez essas pequenas sutilezas sejam consideradas obsoletas, mas é disso que Rocky Balboa, o filme, fala. É curioso observar que, quando surgiu o primeiro Rocky, em 1976, os EUA iniciavam uma nova fase, após a crise institucional provocada pelo escândalo de Watergate. Jimmy Carter, no bicentenário da independência americana, assumiu como uma promessa de recomeço. Não deu certo. O próprio Stallone traiu o princípio do personagem que criara e atrelou não apenas Rocky, mas também Rambo – que era um herói crítico no primeiro filme, Programado para Matar, de Ted Kotcheff –, ao novo conservadorismo que irrompeu triunfante na vida política dos EUA, com Ronald Reagan. Eram os anos de Reagan, de Margaret Thatcher e do papa João Paulo II. Não digo que um dia eles tenham se sentado para planejar, milimetricamente, o que iam fazer, mas esse trio, com certeza, foi fundamental no processo de derrocada do comunismo (aleluia!) e na construção do mundo globalizado das economias neoliberais, nas quais o mercado (o horror, o horror!) virou soberano. Stallone depois só piorou. Perdeu a forma, virou veneno de bilheteria (ou quase). A queda lhe foi benéfica, do ponto de vista da integridade moral e humana. Não vou dizer que Rocky Balboa seja uma maravilha (o filme estréia dia 9, espere para conferir), mas é o melhor da série (o menos ruim?) e levanta questões interessantes. A estética é convencional, há muita música melosa, mas alguns momentos são criativos, do ponto de vista da mise-en-scène, mas o que vale a pena é ver aqueles velhos (Stallone, Burt Young) refletindo, não sem amargura, sobre os novos tempos que ajudaram a construir e, para os quais, não são mais necessários. A segunda chance virou um tema banal – como o retorno ao lar, virou uma espécie de instituição americana –, mas, talvez por ser pai, fiquei tocado em muitos momentos com a dificuldade de Rocky de dialogar com o filho, que absorve o pior da nova era, mas se reconstrói, dentro dessa perspectiva, que é a do filme, de que um outro mundo é possível. Jamais pensei que fosse escrever isso, mas gostei de ver Rocky Balboa. Foi como descobrir um novo sentido na existência de um velho conhecido. Seus defeitos estão na cara, mas as qualidades, de alguma forma, predominam.