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Extraordinária! A risada de Julia Roberts

Luiz Carlos Merten

04 Dezembro 2017 | 00h58

Citei, num post anterior, que Gabriel Mascaro está com novo filme, filmando ou já filmou. Resolvi pesquisar, para descobrir o título. Os sites de cinema, mesmo brasileiros, são formatados para Hollywood, como o mercado. Descobri coisas que não estava querendo saber sobre blockbusters que ainda não estão sendo feitos, mas o título do filme do Mascaro, nada. Descobri até que Jean-Claude Bernardet desqualificou Boi Neon como representativo de um defeito para ele recorrente do cinema brasileiro atual. Os filmes explicativos, que mastigam tudo para o público, etc e tal. Boi Neon? Confesso que me deprimi. No Cine PE deste ano, sozinho contra o mundo nos debates, já tive de ouvir Josias Teófilo, que venceria o festival com O Jardim das Aflições, falar mal do Gabriel Mascaro. Sou ardoroso na defesa do cinema do Mascaro, mas vou me convencer de que ele é ainda melhor do que penso. Direita e esquerda, todo mundo contra? Cabra bom. Existem horas em que me pergunto – estou enlouquecendo? Perdendo o senso crítico? Lendo o que as pessoas escreveram sobre Churchill, só posso acreditar que viram outro filme. No c2 deste domingo que já era – estamos na segunda -, publiquei no impresso a entrevista com Camila Márdila, sobre Altas Expectativas. Achei o filme do Gigante Leo bem interessante, mas percebo que o que me atraiu – a mulher que não ri – não tem o menor significado para os outros, a se julgar por algumas críticas na internet. Vou terminar dando razão a Thierry Frémaux, que me disse na semana passada – entrevistei-o na Reserva Cultural, pelo Lumière! – “Je m’en fou des critiques”. Falávamos da seleção de Cannes, que ele organiza, mas é possível extrapolar. Thierry tem toda razão. E chego ao tema do post. Fui ver Extraordinário, na cabine de terça ou quarta. Havia visto o trailer – Julia Roberts, Owen Wilson, o filho com uma deformidade congênita facial. Confesso que achei que seria um Mask – Marcas do Destino, de Peter Bogdanovich, de 1985 – para o século 21, mas vi outra coisa. Adorei o formato narrativo – a história do garoto é contada por meio dos demais personagens: a irmã, o amigo, a amiga da irmã, etc – e, no final, essa multiplicidade de olhares relativiza o estranhamento, a dor do menino. Ao invés de chorar com ele – coitadinho! Tão discriminado -, choramos com os outros, porque a irmã, o amigo, todos têm problemas e porque, caralho!, o cachorro morreu e quem nunca chorou porque perdeu um cachorro pode parar imediatamente de ler o post. Descobri depois que não é uma invenção do diretor Stephen Chbosky, mas a estrutura narrativa do livro de R.J. Palacio que está saindo no Brasil pela Intrínseca (e nos foi presenteado na cabine). O garoto é extraordinário, está no título, mas quero dizer que extraordinária, para mim, é Julia Roberts. Há anos que os filmes de Julia não repetem o furor de Uma Linda Mulher. Eu gosto de vê-la. Gosto da risada de Julia Roberts. Torna o mundo muito melhor.