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Luiz Carlos Merten

02 Janeiro 2010 | 19h19

Consegui chegar ao Espaço Unibanco a tempo de (re)ver ‘Hiroshima, Meu Amor’. Ontem, no jornal, quando disse a meu amigo (e edtor) Dib Carneiro que pretendia ir à Sessão Cinéfila, ele brincou. Pediu que eu contasse para lhe disser quantos gatos pingados teriam sido loucos de ir num sábado de feriadão, ao meio-dia, ver um filme mesmo que um clássico de Resnais. A sala não esava lotada, mas cheia – uns três quartos de público, pelo menos. Na saída, ouvi as pessoas se fazendo as piadas de praxe, acho que há 50 anos. Um cara perguntou para outro – ‘Qual é teu nome?’ Ele respondeu e o sujeito ironuizou – ‘Pensei que fosse São Paulo… ‘Hiroshima’ termina com Emmanuelle Iva dizendo a Eiji Okada que o nome dele é HIroshima e ele responde que o dela é Nevers, na França. Que filme, meu Deus! Assisti em êxtase. E a música! Antes de sair, havia escrito aquele post, ‘Hiroshima, Nosso Amor’, falando no público e no privado, no filme (e em Resnais). ‘Hiroshima’ é sobre o horror da bomba atômica, que destrói uma cidade inteira, mas é também sobre o horrr qe representa o esquecimento do amor. ‘Petite coureuse de Nevers, je te donne à l’oubli’, diz Riva. A boa consciência de esquerda, antes da nouvelle vague, exigiria um filme sobre Hiroshima, mas nunca nivelando o horror da bomba com a experiência do amor truncado. Seriam experiências de grandezas diferenças. O perturbador, em Resnais, é que ele mostrou que não. EXiste aqele momento em que Okada pergunta a Rica o que representava, para ela, Hiroshima, na França. Ela fala na ‘stupeur d’avoir osé’ e, depois, no perigo da indiferença. É disso que fala o filme, há 50 anos. Tinham de ser os jovens ‘alienados’ da nouvelle vague, que prferiam o amor à política. Claro que as coisas não eram assim fáceis, havia política naqueles filmes, há em ‘Hiroshima, Nosso Amor’. Mas a grandeza é ousadia do filme é esse nivelamento que só pode se dar no inconsciente. A dor do amor aqui e a indignação causada por um evento lá do outro lado do mundo. Vejo e revejo este filme e ele é sempre novo. Redescubro ‘Hiroshima’ a cada visão. E choro! As primeiras cenas em Nevers, quando Resnais mostra os encontros de Riva com o seu ‘alemão’, a som daquela música, são as coisas mais belas que existem. Resnais cria travellings a partir de dois planos fixos. As novidades não se esgotam. Liguei para Margarida Oliveira, lá mesmo do Espaço Unibanco, e ela observou – ‘Já não se fazem filmes assim!’ Fazem-se, com efeito, outros bons e até grandes filmes, mas como ‘Hiroshima’, jamais.