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Expressionismo e melodrama no Drácula de Madureira – o Boca de Gabriel Vilela

Luiz Carlos Merten

11 Agosto 2017 | 15h24

Havia pedido a meu amigo Gabriel Vilela que homenageasse Odete Lara, colocando na sua Guigui um vestido de bolinhas como o que ela usava no filme que Nelson Pereira dos Santos adaptou da peça de Nelson Rodrigues, O Boca de Ouro. O vestido dá a impressão de ter sido costurado no corpo da atriz. A jovem Odete era um assombro de curvas. Gabriel não atendeu ao meu pedido, mas é porque não cabia, na concepção dele. Fui ver ontem o Boca do Gabriel no Tucarena. Maravilhoso. Gabriel coloca na arena o texto rodrigueano na íntegra, mas o encena como nunca vi. É um verdadeiro, e grande, autor, o meu amigo. Gosto da versão de Nelson, o Pereira, e além dela vi, no palco, a de Zé Celso, que serviu para catapultar Reynaldo Giannechini, e também outra adaptação para cinema, por Walter Avancini, com Claudia Raia, na fase bagaceira, precedendo a de diva dos musicais. Jesus! Ruim demais da conta. Gabriel carrega todo o barroco dentro dele, e aquele guarda-sol de panos negros para acolher o Boca na hora da revelação sobre a mãe não o desmente. Mas o barroco é, como diria Daniel Filho, um plus a mais. A essência do seu Boca é expressionista. O Drácula de Madureira. E justamente por trabalhar essas linguagens, no plural – o barroco, o expressionismo, o tropicalismo – o verde da roupa de Celeste e o amarelo ouro do Boca – é que Gabriel precisa de outro figurino e também se sente à vontade para exercitar o melodrama. O maior de todos os mestres – Luchino Visconti – amava Verdi e o melodrama. Gabriel possui esse viés viscontiano. E ele absorveu – e transcendeu – a viagem que Sábato Malgaldi faz em em seu texto no programa. Nelson Rodrigues, Teatro da Obsessão. Ou de como Nelson rasgou o subconsciente e sondou raízes inconscientes para impregnar o mítico e o psicológico da dura seiva social. É o espectro completo que lhe permite – a Gabriel – construir sua encenação na gafieira e colocar, dentro dela, o Brasil. O que é a ‘verdade’? Certamente não é o que anda vendendo a imprensa, veja-se O Mercado da Notícia, de Jorge Furtado. O mito é costurado com fiapos de realidade, e é o que importa. O Boca de Ouro carrega, mais que qualquer outra encenação recente de Gabriel, o seu comentário – estético – sobre o triste estado do Brasil. O País à venda. Todo, do primeiro ao quarto poder. A Aquarela do Brasil e o corpo do malandro, que está lá estendido no chão. E Ne Me Quittes Pas, como celebração do melodrama. E Lencinho Branco. A desconstrução do Brasil, e do próprio melodrama. Gabriel leu e também absorveu todo Brecht. E pisca o olho para nós, seu público. Tudo é encenação. O ator cata seu vidrinho de sangue falso e desenha, no próprio pescoço, a mordida fatal do vampiro. O antinaturalismo. Justamente, os atores. Ninguém passa impune pelas mãos do meu amigo. Durante boa parte do espetáculo, metamorfoseado em deus asteca, Malvino Salvador está quase irreconhecível para seu público – que o reencontra na ginga daquela dança. Guigui forja o Boca como personagem em seus sucessivos e contraditórios relatos. Lavínia Pannunzio, mesmo sem vestido de bolinhas, é genial no papel. E Mel Lisboa, Celeste, e Claudio Fontana, Leleco, e Chico Carvalho, Maria Luiza. Teria de elogiar e nominar um a um, porque todo o elenco é perfeito. Mas tem a Mariana Elisabetsky, preparada, musical e vocalmente, por Babaia e Francesca della Monica. Ave, Gabriel. Mais uma vez, e dessa vez mais ainda, me surpreendeste.