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Cultura » Existem em DVD? No Brasil?

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Luiz Carlos Merten

31 Março 2009 | 14h01

Estava aqui na maior pauleira quando tocou o telefone. Era a Susana, amiga de meu amigo Vilmar Ledesma, que queria saber se não me incomodava, porque queria trocar uma idéia. O momento não era dos melhores, mas a amiga de um amigo querido sempre tem de ter atenção. Conversamos. Susana ama Pierre Granier-Deferre e queria saber se existem cópias disponíveis no Brasil de dois filmes do diretor – ‘O Gato’ e ‘O Trem’. Prometi que lançaria o assunto para vocês, o que faço agora. Granier-Deferre é um daqueles diretores que meus colegas críticos devem encarar com reservas, perguntando-se se lhe podem atribuir a definição de ‘autor’. Jean Tulard diz que Granier-Deferre foi, durante um certo tempo, o sucessor de Jean Delannoy no cinema francês, fazendo um cinema de qualidade, sem surpresas, mas impecável. Tenho para mim que Granier-Deferre foi mais que isso. Suas três adaptações de Simenon lhe valem uma vaga no meu panteão particular. ‘O Gato’, ‘A Viúva’ e ‘O Trem’ me encantam, ou encantaram, quando os vi. De alguma forma, Granier-Deferre, no meu imaginário, está ligado a Claude Sautet, que começou no filme noir, no policial, e evoluiu para um tipo de crônica de costumes da pequena burguesia que fez dele um grande autor em ‘As Coisas da Vida’, ‘Sublime Renúncia’, ‘César e Rosalie’ e ‘Vicente, Francisco, Paulo e os Outros’. Não saberia escolher entre estes filmes, talvez ‘Sublime Renúncia’, Max et les Ferrailleurs, com Michel Piccoli e aquela Romy Schneider em estado de graça. Granier-Deferre nunca chegou perto, pelo menos no reconhecimento dos críticos, talvez porque tenha se mantido fiel a um universo sombrio, criminal, como provam seus numerosos Simenons. Mas a ação nunca foi o mais importante para ele e sim, o desenho detalhado dos personagens, que construía com a cumplicidade de grandes atores (Jean Gabin, Simone Signoret, Alain Delon, Jean-Louis Trintignant). Estou escrevendo e lembrando de certos momentos, a atmosfera opressiva entre aquele casal de velhos interpretado por Gabin e Simone (‘O Gato’), a tensão erótica entre Simone e Delon (‘La Veuve Cordec’). Me deu até vontade de rever esses filmes, ou de ler um bom Simenon, mas agora não dá. Tenho de terminar ‘A Queda de Tróia’, que pretendo engatilhar com ‘O Segredo de Shakespeare’ para chegar ao novo Chico (Buarque). E existem todos os filmes do É Tudo Verdade, as mesas redondas da Conferência Internacional do Documentário. É muita coisa. Ainda bem!