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Cultura » Evolução de Ricardo Elias

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Luiz Carlos Merten

23 Setembro 2006 | 12h38

Ocorre hoje à noite a sessão de gala, no Cine Palácio, de Os Doze Trabalhos, o novo filme de Ricardo Elias. Sou até suspeito para falar dele, porque gosto bastante de De Passagem, com todos os defeitos que possa ter. Talvez seja até a imperfeição, com sua carga de sinceridade, o que mais me atrai no filme. Os Doze Trabalhos marca agora um avanço na carreira do Ricardo. Ele não está mais de passagem pelo cinema brasileiro. Inicialmente, o filme deveria se chamar Os Doze Trabalhos de Hércules, contando a história desse ex-interno da Febem, o jovem Heracles, que como o Hércules da mitologia, tem de executar 12 trabalhos num único dia para conquistar a vaga de motoboy numa empresa que presta serviços em São Paulo. Ricardo é do subúrbio, é branco e de classe média, mas isso não o impede de trazer para o cinema paulista (e brasileiro) a dificuldade de integração social de negros e pobres. Se você pergunta de onde vem seu interesse humano e social – que não é só dele, claro -, Ricardo responde com a maior simplicidade que é da convicção de que tudo isso, os ricos, os pobres e os de classe média, independentemente de cor, de instrução, de inserção social, compõem a mesma realidade brasileira. Parecem mundos diversos e até opostos, mas formam o mesmo mundo e esta é a tragédia nacional, que é preciso entender, para tentar transpor o abismo – embora esta seja uma meta que ultrapassa o cinema. O diretor expõe, não tem que dar sua solução para os problemas de que trata. Os Doze Trabalhos, como Deus e o Diabo na Terra do Sol e Abril Despedaçado, termina em suspenso, na praia, com o herói de cara para o mar. Logo na abertura, o narrador diz que Heracles nasceu na periferia ‘braba’ (os paulistas dizem brava) e isso age como um fator de condicionamento social. Os doze trabalhos poderiam render uma narrativa episódica, até porque envolvem diferentes estilos (animação, videoclipe, realismo), mas a maturidade de Ricardo Elias está em ter conseguido dar uma unidade ao que ameaçava ficar fragmentado. Será preciso voltar a Os Doze Trabalhos e ainda falar muito sobre o filme do Ricarsdo Elias, que integra a representação paulista nota 10 (Heitor Dhalia, Tata Amaral, Cao Hamburger) na Première Brasil 2006. A própria Première, como um todo, está muito atraente e o filme do Karin Aïnouz, O Céu de Suely, é de uma contenção e de uma delicadeza excepcionais. Também ouço falar maravilhas de Proibido Proibir, que assinala a volta do Jorge Durán, 20 anos depois de A Cor do Meu Destino. Para cinéfilos, isso aqui (o Festival do Rio) é uma festa.