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Luiz Carlos Merten

13 Julho 2007 | 11h09

Temo estar embaralhando os nomes, mas acho que foi o Saymon quem me me pediu que não mudasse de opinião. Havia dito que Eva, do Losey, é o mais noir dos filmes e ontem, sobre Pacto de Sangue, disse que o clássico do Wilder ostenta a fama de ser o mais emblemático dos filmes noir. Não, Saymon, não pretendo mudar de opinião. Eva é um filme que está lá no meu panteão. Era muito jovem quando o vi e nem tinha condições de aprofundar a leitura de obra tão rica e complexa. Mas nunca deixei de visitar Eva na memória. Quando entrevistei Jeanne Moreau, falei com ela sobre o filme do Losey e Jeanne me confirmou o que já sabia. O filme foi produzido pelos irmãos Robert e Raymond Hakim, que depois produziram os filmes mais populares de Buñuel e até um ou outro Kurosawa, da fase final. Eva é uma adaptação de James Hadley Chase e os Hakim o encaravam como um policial. Losey via muito mais amplo. O policial era somente um suporte para o que ele queria fazer. Filmando em Veneza a história de Tyvian e Eva, ele misturou a expulsão do paraíso a uma análise muito crítica da apropriação cultural (e econômica) no capitalismo. Não por acaso, filmou em Veneza, cidade/berço do capitalismo. É lá que Tyvian, um escritor de sucesso, encontra essa prostituta dominadora que vai subverter (e destruir) sua vida. Eva é uma predadora que descobre o segredo de Tyvian. Seu livro de sucesso foi escrito pelo irmão, que morreu. Ele é covarde, impotente (no sentido ético) – Eva o define como ‘pobre tipo!’ Losey fez um filme de três horas, ou quase. Ele sempre disse que a versão do diretor de Eva era sua obra-prima, mas o filme foi remontado pelos produtores. Jeanne apoiou Losey, mas não adiantou. Ouvi dizer que a versão de autor de Eva havia sido restaurada. Não sei se é verdade. Só vi a versão mutilada, que sempre me pareceu grande. É o mesmo caso de Caçada Humana, de Arthur Penn. O diretor nunca se conformou com os cortes impostos pelo produtor Sam Spiegel. Em ambos os casos, Losey e Penn tinham filmes ideais na cabeça, talvez melhores. Nunca tiveram distanciamento para encarar o assunto. Mesmo mutilados, os filmes que a gente conhece são grandes. E Eva é mais que grande, é genial.

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