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Luiz Carlos Merten

10 Agosto 2007 | 11h03

Estou de volta a São Paulo. Cheguei agora de manhã e já estou na redação do Estado, fazendo os filmes na TV de amanhã e o texto de apresentação do Festival de Gramado, que começa no domingo. Não vou ficar me queixando da tecnologia, mas era muito lento abrir o laptop e ficar esperando para ler os comentários, motivo pelo qual só agora fiquei sabendo da comoção (e da polêmica) que provocou a minha ida a Ramallah. Imaginei que alguns ‘reacionários’ iam ficar ofendidos com o fato – e o que, para eles, seria meu ‘apoio’ escancarado à causa palestina –, mas não imaginei que ia ler tanto absurdo. Agora, a verdade é a seguinte. Você escreve uma coisa com todas as letras e cada um lê como quer (é o que parece). Só isso explica a irracionalidade de certos comentários. Não sou judeu, não sou palestino. Sou humanista, palavra que hoje em dia virou sinônimo de sonhador, de tal maneira o seu significado profundo ficou desgastado. Contei para vocês do meu horror no museu do holocausto, em Jerusalém, mas a verdade é que também me senti muito mal transpondo aquele muro e entrando na Cisjordânia, nos territórios ‘ocupados’ por Israel. Lá dentro, não foram palestinos – os diretores e jornalistas que encontrei – mas os próprios israelenses (de bem) que me chamaram a atenção para o fato de que o muro está sendo construindo dentro do território palestino, e tirando uma fatia dele. Teve um que me disse uma coisa interessante – seria como se eu construísse um muro separando a minha casa do vizinho e construísse um metro dentro do terreno dele. Nada como ir a Israel e visitar aqueles lugares sagrados de três culturas – judaísmo, cristianismo e islamismo – para perceber toda a extensão da complexidade dos conflitos que fazem do Oriente Médio uma das regiões mais explosivas da Terra. Ninguém é louco de querer destruir Israel – bem, tem muita gente louca que quer isso, sim –, os judeus de todo o mundo precisam dessa referência, mas achar que um muro separando dos palestinos resolve, ou pelo menos atenua o problema (os atentados diminuíram), é pensar pequeno. Está resolvendo hoje, agora, mas amanhã? Li muita coisa em Israel, conheci pessoas, ouvi motoristas de táxi – que sempre dão uma visão muito particular do país, em qualquer lugar – e me convenci do perigo real que pode representar a transformação de Israel num Estado teocrático, o que parece querer a sua direita religiosa. Não creio que exista outra solução para o Oreiente Médio que não a criaçãso de dois Estados autônomos, o de Israel (que já existe) e o palestino (do qual Ramallah foi criada para ser a capital). Isso é a lógica que diz, mas onde entra o fanatismo religioso a primeira a ser sacrificada é justamente esta senhora, a tal lógica, que os extremos adoram conspurcar. O post está longo. Vou parar e seguir daqui a pouco, o que também dará tempo para vocês se manifestarem.