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Luiz Carlos Merten

29 Julho 2009 | 14h03

Vocês me desculpem, mas minha vida anda meio tumultuada e não tenho tido tempo de dar ao blog a atenção que gostaria. Na segunda, fui a Paulínia para visitar o set de ‘Chico Xavier’, que Daniel Filho abriu para mim. A matéria está hoje na capa do ‘Caderno 2’. Sei das resistências de muitos de vocês ao Daniel, mas eu o respeito – além de ter gostado de dois filmes sucessivos dele, ‘Se Eu Fosse Você 2’, atual recordista de público da Retomada, e ‘Tempos de Paz’. Adorei ver a cena que estava sendo filmada e que envolvia uma série de desafios, inclusive o técnico, porque Daniel filmava com duas câmeras, em dois movimentos coordenados – uma grua que baixava em plongê, com combinação de pan (panorâmica) e outra câmera no solo, fazendo um movimento reto lateral em relação à ação filmada (o exorcismo da irmã do médium, que ele interrompe, libertando-a, metaforicamente, dos grilhões que a amarram). Vi o Daniel ensaiar com os técnicos, os atores, com e sem fala. Antônio Ângelo faz o jovem Chico Xavier. No filme, o papel é representado por três atores – o menino Matheus Costa e, na fase madura, Nelson Xavier. Depois de toda preparação, finalmente a cena foi rodada. Daniel se virou para mim eufórico. Deu! Ele é famoso pela tomada única, one shot. Aproveitamos para conversar sobre o digital, que o diretor usa em ‘Tempos de Paz’ e agora ‘Chico Xavier’ e o assunto caiu em Michael Mann, ‘Inimigos Públicos’. Ontem, fiz nova viagem, desta vez ao Rio, para outra visita a set. Pela manhã, passei no jornal para redigir a capa do Daniel. Não foi dizer o set que visiteri para não furar o jornal (a matéria sai só no começo da semana que vem). Peguei o Rio com chuva e o vôo atrasou, tanto na ida quanto na volta. Terminei chegando em casa quase meia-noite. Mas foi bacana. Adoro visitar sets. Não teria a menor paciência de fazer aquilo. Filmar é um processo muito lento, muito meticuloso. Se o filme vai dar certo, ou não, é difícil, senão impossível, prever na hora, mas acho legal ver o empenho e profissionalismo das equipes. Só para fechar o ‘Chico Xavier’. Daniel Filho é ateu. Não faz do filme uma peça de militância a favor do espiritismo. Mas ele chama que ‘Chico Xaxier’ é seu épico, o seu ‘El Cid’, como me disse. Embora ateu, ele queria se cercar de alguns atores espíritas. Ana Rosa há mais de 30 anos tenta decifrar ‘esse mistério’. Conversei com ela no set, que me contou do Chico Xavier que conheceu. Ana Rosa contracenava com Anselmo Vasconcelos. Não troquei uma palavra com ele, mas Anselmo faz parte das minhas mais fundas emoções no cinema brasileiro. Nem gosto tanto do filme, mas ele é excepcional em ‘República dos Assassinos’, que Miguel Faria Jr. adaptou do livro de Aguinaldo Silva, como o travesti, que, se não me engano, se chama Eloína. E o Anselmo, como Eloína, tem uma fala incrível, expondo-se de um jeito como nunca mais vi no cinema (e já se passaram 30 anos!). Existem atores que são míticos. Luis Melo também participava da cena. depois, daniel fez os planos de cobertura, filmando cada um isoladamente. Luis Melo faz o pai da exorcizada e Daniel pediu que ele iniciase seu plano solitário aflito e fosse relaxando, à medida que o filho, Ângelo – Chico Xavier -, fosse liberando a garota de sua carga maléfica. Luis Melo foi tão maravilhoso que o set prorrompeu em aplausos no final da tomada dele. Meninos e meninas, eu estava lá. Eu vi!