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Luiz Carlos Merten

21 Julho 2010 | 11h21

Meninos, eu vi. ‘Inception’, A Origem. P… filme. Não sei se é melhor do que ‘Batman, O Cavaleiro das Trevas’, porque vi ontem, na cabine da Warner, sem os recursos que a exibição da próxima semana, na sala Imax, com certeza deve propiciar. Imagino que a exaltação será muito maior, mas confesso que não tive a paciência de Isabela Boscow. Nos encontramos segunda à tarde na cabine da Fox, onde vimos ‘Os Predadores’, e comentei que estava nos cascos para ver, ontem à tarde, o novo Christopher Nolan. Isabela me perguntou se havia assistido ao trailer? Não. Com aquelas imagens, me disse ela, valeria esperar pelo dia 26, ou 27. Não aguentei. Já disse mil vezes que ‘Memento’ e ‘Insônia’ não me ‘apanharam’. Revi cenas do primeiro, no outro dia – o filme passava na TV paga – e há algo, naquele cerebralismo, que trava minha emoção. Acho um thriller engenhoso, mas não consigo ‘entrar’. Com ‘A Origem’, a adesão foi imediata, e no desfecho a emoção era tão forte que as lágrimas jorravam e eu tentava conter os soluços para não dar vexame perante os coleguinhas que também assistiam ao filme. Não busco, necessariamente, esta catarse no cinema, mas certos filmes a desencadeiam, e é um processo sobre o qual não tenho controle. ‘Memento’, ou Amnésia, ficou famoso porque o diretor conta sua história de trás para a frente. ‘Insônia’, porque Nolan subverte o próprio conceito do filme noir, fazendo com que sua trama de crime se passe no dia eterno do Ártico. De maneira muito consciente – não pode haver nada de inconsciente numa construção dramática daquelas –, Nolan já vinha se preparando para ‘O Cavaleiro das Trevas’ e para ‘A Origem’. Você se lembra da cena do andaime no segundo Batman de Nolan. O Homem-Morcego suspende o Coringa pelo pé e a câmera descreve um momento para igualar o homem invertido e o herói. Tudo converge para essa cena que encerra uma metáfora moral. Por mais que ache Heath Ledger brilhante, acho que o Coringa só funciona como oposição a Christian Bale, que é quem me interessa. O herói penitente passa o tempo todo brigando consigo mesmo. O desejo de vingança, após a morte dos pais, transformou Batman num justiceiro, mas ele se questiona o tempo todo sobre seu papel na sociedade. O filme é sobre a organização social, sobre a necessidade ou não de heróis, sobre os riscos que mesmo o heroísmo impõe à democracia. As ideias – inversões, contrastes, espelhos – são retomadas e ampliadas em ‘A Origem’. O filme é sobre a arquitetura dos sonhos. Um labirinto de Borges? Também, mas é mais Escher. Uma coisa é citar o artista, outra é recriar suas perspectivas alucinantes, seus jogos de escadas, seus pontos de vista. Para isso, é preciso toda a máquina do cinemão, todos os recursos de que dispõe a indústria de Hollywood. Admiro o cinema de autor. Quanto mais radical, melhor, mas para mim o problema nunca é ‘dinheiro’. Amei o ‘Tio Boonmee’, de Apichatpong Weerasethakul e torcia para que ganhasse a Palma de Ouro, sabiamente atribuída por Tim Burton , que presidia o júri de Cannes neste ano. Burton, em maio, era o diretor mais exposto do mundo, graças à sua ‘Alice’. Apichatpong, o mais secreto. O encontro dos dois, para mim, fez história. Encontro aqui a mesma grandeza. O cara tem de ser muito fodão, um gênio, para colocar a máquina do cinemão a serviço de seu imaginário. ‘A Origem’ é autoral, mas não poderia ser feito sem todos aqueles recursos. É inteligente, divertido, emocionante. O que é realidade, o que é imaginação? O que é sonho? O filme é sobre essa equipe, liderada por Leonardo DiCaprio, que entra na mente das pessoas para roubar segredos. Um thriller e uma ficção científica. Uma forma de espionagem industrial, mas algo mais. Uma metáfora do cinema? Sem dúvida. Mais do que sonhos, tudo gira em torno de ideias. A frase chave, dita por Cobbs/DiCaprio, é – ‘Qual é o parasita mais resistente? Uma ideia. Uma simples ideia da mente humana pode construir cidades. Uma ideia pode transformar o mundo e reescrever as regras. E por isso eu roubo ideias.’ Talvez exista nisso, ainda não consegui racionalizar o filme, uma reflexão sobre o norte-americano como imperialista (o novo ‘Kane’?). Estou chapado. E viva o cinemão de autor.