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Luiz Carlos Merten

22 Abril 2012 | 13h47

Um colega crítico me disse que havia adorado ‘O Céu sobre os Ombros’, mas não propriamente o filme de Sérgio Borges e sim, o ‘processo’. Ele me disse na melhor das intenções e eu o respeito, e por isso não dou o nome, mas logicamente que o processo é uma coisa na qual não penso quando vou ver/avaliar um filme. Posso registrar nas entrevistas – por exemplo, adorei saber que, para Robert Guédiguian, a personagem começa a nascer quando ele vai, com a figurinista e às vezes os atores, a lojas de departamentos para comprar as roupas que vão usar em cena. É uma informação valiosa, mas não creio que, se Guédiguian e sua figurinista fizessem o guardarroupa, meu sentimento fosse mudar e, a propósito, ‘As Neves do Kilimanjaro’ é muito bacana. Espero que tenham visto. Por que estou escrevendo isso? Ah, sim, por causa de Beto Brant (e Renato Ciasca). Amo Camila Pitanga e vi que ela deu entrevista no ‘Caderno 2’ elogiando o processo do Beto e do Renato, dizendo que foi o mais intenso de sua carreira, a Lavínia de ‘Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios’ também é sua melhor personagem etc. Não li a entrevista, mas foi o que me sinalizaram título e olho, com direito a chamada de capa no ‘Estado’. Quero dizer que discordo. Por mais que considere Camila a própria razão de ser de ‘Eu Receberia’, acho que sua melhor personagem é a Dama da Noite na cinebiografia de Noel Rosa por Ricardo Van Steen, cujo método, ou processo, nem sei como foi, embora o tenha entrevistado. (Essa coisa de método é curiosa. Dustin Hoffman tinha uma cena em que, supostamente, devia ter uma reação dramática após correr, em ‘A Maratona da Morte’, de John Schlesinger. Ele se preparou durante horas, correndo e o escambau. Laurence Olivier, com quem contracenava, lhe perguntou o que estava fazendo, ele explicou. ‘Larry’ humilhou-o. Disse – ‘Ah, isso?’ e ofegou, do nada, sem nenhuma ‘preparação’, como Hoffman deveria fazer. Ah, os grandes atores….) Mas, de volta a ‘Eu Receberia’, temos engatilhado, Luiz Zanin e eu, um gostei/não gostei que ainda não saiu no ‘Caderno 2’ por falta de espaço. Eu não gostei, ou melhor, gostei de Camila e Gustavo Machado, que tem uma pegada muito boa com ela nas cenas de sexo, mas o filme… Beto Brant me parecia melhor no começo da carreira, quando era um diretor ‘narrativo’. Ele fez filmes muito mais ambiciosos, mas eu permaneço preso lá atrás, a ‘Os Matadores’. Aprecio moderadamente ‘Cão sem Dono’. O resto – o restante – me deixa de pedra. Empaco feito mula na cena de ‘O Invasor’ em que Paulo Miklos simula disparar o revólver na plateia. Robert Aldrich e Sam Peckinpah fizeram isso, lá atrás, mas o quadro e o objetivo eram outros. Beto Brant encarna hoje a persona do ‘autor’ por excelência. Eu acho que seus filmes, pegando carona no título, são cães que ficam dando voltas em torno ao próprio rabo. Daniel Piza uma vez conversou comigo sobre ‘Cão sem Dono’, que eu havia elogiado. Me acusou, como ‘crítico’, de gostar de filmes em que não acontece nada porque isso permite divagar e colocar (no imaginário…) tudo aquilo em que o autor talvez nem tenha pensado. ‘Eu Receberia’ trafega entre ficção e documentário – quase todo cinema brasileiro hoje parece fazer essa mão dupla –, mas eu creio que a história de Marçal Aquino poderia muito bem ser só ficção, e talvez fosse melhor. Há uma parte expositiva dos personagens, digamos assim, que é bem legal, mas depois, Beto, o autor – perdão Beto e Renato, os autores – , devem achar que história com começo, meio e fim é coisa de Hollywood e descontroem a narrativa, a personagem (Lavínia). Achei meio pé sem cabeça, ou melhor, com o pé mais no cinema que na realidade. Mais que chato, me pareceu bobo. O filme implode, como tiro no pé. Mas, enfim, ninguém é obrigado a concordar comigo. E a Camila… Grande Camila, só que poderia ser maior. Depois de Bob Wilson, um autor em busca de ator, ela me deu a impressão de ser, não uma atriz em busca de personagem (à Pirandello…), mas de um autor mais centrado.