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Cultura » Eu não gosto do De Sica?

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Luiz Carlos Merten

03 Março 2008 | 15h33

Lamento ter passado a impressão errada, no caso de Vittorio De Sica. Eu não gosto dele? Sobre o ator, falei outro dia aqui do meu carinho pelo ‘Mareschiallo’ que De Sica interpretava na série ‘Pão, Amor e…’ Sobre o diretor, realmente, acho que o De Sica pós-neo-realista teve dificuldades de adaptação no quadro do cinema italiano. Enquanto Rossellini e Visconti – e Fellini, e Antonioni e, na seqüência, Francesco Rosi – abriam novos rumos para a narrativa, De Sica ficou ali, insistindo num neo-realismo tardio (‘O Teto’) ou então celebrando o estrelismo de Sophia Loren na guerra (ah, os closes dos olhos e da boca de Sophia na abertura de ‘Duas Mulheres!’). De Sica terminou cooptado pelo cinemão peninsular e fez todos aqueles filmes – ‘Ontem, Hoje e Amanhã’, que ganhou o Oscar, ‘Matrimônio à Italiana’ e ‘Girassóis da Rússia’. Dá para comparar com ‘Ladrões de Bicicletas’ e ‘Umberto D’? Nem dou a minha resposta. Dêem a de vocês. E a coisa foi piorando. O Sartre do De Sica (‘O Condenado de Altona’) é uma coisa horrorosa e na comédia ‘Sete Vezes Mulher’, formatada para Shirley MacLaine, ele cuspiu no próprio passado. Mas eu tenho de confessar uma coisa, acho até que já escrevi. Pode ser um equívoco de interpretação, mas ‘O Jardim dos Finzi-Contini’, outro filme de De Sica vencedor do Oscar, por mais belo e sensível que seja, me deixa sempre um travo. É intelectualmente honesto criticar o nazismo porque o Holocausto acabou com o estilo aristocrático daquela família? Ah, é? Quer dizer que, se fossem pobres e morassem num cortiço, não faria mal serem deportados para a morte? Mesmo me arriscando a levar uma pedrada, o meu De Sica preferido da última fase é ‘Una Breve Stanza’, com a Florinda Bolkan, que no Brasil se chamou ‘Amargo Despertar’. Muita gente acusa o De Sica de demagogia e por aí afora, mas acho muito bonita a história da operária que fica doente, vai para uma clínica e descobre um outro mundo, adquire cultura. Tudo isso para quê? Para voltar à fábrica. Houve aí uma derrota? Não, valeu. Mesmo amargo, houve um despertar de sua consciência. Acho que houve um despertar da consciência do próprio De Sica. No fim da vida, ele tentou, sem êxito, adaptar ‘Um Coração Simples’, de Gustave Flaubert. Nunca havia lido o conto, editado no Brasil com outros dois do autor pela L&PM. Comprei num aeroporto (acho que Porto Alegre) e li no vôo. Que coisa maravilhosa. E a simplicidade, e o despojamento! Teria sido um fecho glorioso para a carreira do De Sica, que morreu em 1974, aos 73 anos. Talvez tenha sido melhor como foi. Ficou uma coisa viscontiana, o sonho quebrado, irrealizado. Vocês sabiam que, no fim da vida, por problemas com o fisco, De Sica foi morar na França? Morreu em Paris, exilado. Um cara que representava a alma italiana. Que coisa!