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Cultura » Eu amava Paul Newman

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Luiz Carlos Merten

27 Setembro 2008 | 13h06

RIO – Vocês não imaginam com que tristeza vim hoje à surcusal do ‘Estado’ não para postar sobre o Festival do Rio, mas para redigir um texto sobre a morte de Paul Newman. Meu colega Luiz Zanin Oricchio fez o texto de abre, sobre o factual da morte e da carreira, mas eu não podia deixar de acrescentar alguma coisa. Confesso que, no táxi, a caminho do Centro, embarquei numa viagem que, quando eu vi, estava chorando. O pobre motorista não entendeu nada. Newman é indissociável no imaginário do cinéfilo das colaborações ou papéis duplos. Dois filmes com Richard Brooks (‘Gata em Texto de Zinco Quente’ e ‘Doce Pássaro da Juvenrtude’, ambos adaptados de Tennesse Williams), dois de Martin Ritt (‘O Indomado’ e ‘Hombre’), dois de George Roy Hill (‘Butch Cassidy’ e ‘Golpe de Mestre’), dois de John Huston – neste caso, só o segundo é marcante, ‘Roy Bean, o Homem da Lei’, uma extraordinária revisão dos mitos do Oeste. O primeiro, ‘O Emissário de McIntosh’, até onde me lembro, é um thriller muito modesto. Além das parcerias duplas com grandes diretores, Newman interpretou duas vezes os mesmos personagens em pelo menos quatro filmes – o jogador de sinuca Eddie Felson em ‘Desafio à Corrupção’, de Robert Rossen, e em ‘A Cor do Dinheiro’, de Martin Scorsese, que lhe valeu o Oscar; o detetive Lew Harper, que nos livros de Ross MacDonald se chama Archer, em ‘Harper, o Caçador de Aventuras’, de Jack Smight, e ‘A Piscina Mortal’, de Stuart Rosenberg.
Havia entrevistado na quinta-feira Karen Allen e ela me falou de ‘The Glass Menagerie’ (Algemas de Cristal), como uma das grandes experiências de sua carreira. Criar uma personagem de Tennessee Williams num filme dirigido por Paul Newman e interpretado por Joanne Woodward e John Malkovich, me disse, ensina mais sobre a arte de representar do que anos e anos de academia. Newman, como ator, criou uma linha de (anti)heróis românticos e/ou rebeldes. Como diretor, voltou-se para as pequenas vidas, para os personagens anônimos e tristes, o reverso do que ele próprio e a mulher, sua atriz-fetiche, representavam no imaginário do público. Piloto de automobilismo, criador de uma linha bem-sucedida de molhos, Newman ganhou uma fortuna com a culinária, mas a doou integralmente parta projetos sociais. A morte, o suicídio, do filho marcou-o profundamente. Não imagino dor maior para um homem, enterrar o próprio filho. Eu não sei de vocês, mas eu amava Paul Newman, como homem íntegro, como ator e diretor de filmes que fazem parte da minha vida. Lembro que o Oscar de melhor ator lhe foi entregue por Bette Davis e ela disse alguma coisa do tipo ‘Finalmente’ Como esse prêmio demorou para vir para quem tanto o merecia!’ Falei tudo isso e deixei para o final que, se tivesse de escolher um só filme, uma só interpretação de Newman, seria a do revolucionário Ari em ‘Exodus’, de Otto Preminger. Meus Deus, as cenas de Newman com Eva-Marie Saint! A própria Eva-Marie, que já havia tido aquelas cenas líricas com outro garoto-propaganda do ‘Método’, Marlon Brando, em ‘Sindicato de Ladrões’, de Elia Kazan… Mais um mito que se vai. Quer dizer, vai-se Paul Newman, o homem. O ator e o mito continuam conosco.