Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Eu?

Cultura

Luiz Carlos Merten

19 Abril 2008 | 18h54

Que pena que vocês entenderam meu post sobre o suposto homossexualismo de John Ford como preconceituoso. Não é, ou não era essa a intenção. Em geral não ligo muito para essas opções sexuais de artistas, exceto nos casos em que isso termina se refletindo na obra. Ouço cada coisa que Deus me livre… E se postei a história atribuída ao Ford não foi para ridicularizar, mas para humanizar. Até tu…? A propósito, li num desses livros sobre os bastidores de Hollywood e suas figuras míticas que Randolph Scott e… – quem era mesmo? – teriam tido uma paixão intensa que não puderam assumir por causa da indústria e no fim da vida, já não ligando para ninguém – e não tendo mais o que perder -, se encontravam e ficavam sentadinhos e agarradinhos. Coisa mais triste! Tenho a imnpressão que a autora de ‘O Segredo de Brokeback Mountain’, Annie Praulx, sabia dessa história, porque a tristeza é a mesma da sua narrativa curta, que Ang Lee filmou. No caso de John Ford, até aqui sempre havia lido referências a ele como ‘ladies man’, tendo tido até alguins casos que ficaram célebres na crônica de Hollywood, como aquele com Katharine Hepburn, quando filmaram ‘Mary Stuart’. Um pouco da minha perplexidade deve-se ao fato de que muitas vezes eu achava absurdo quando as pessoas viam sinais de homoerotismo em cenas como as das brigas de John Wayne e Lee Marvin, a socos, em ‘O Aventureiro do Pacífico’. Achava aquilo inocente, ou por outra, uma crítica à infantilidade dos adultos machos. Quando Dorothy Lamour dá um autinho de brinquedo a cada um dos dois, sempre achei um signo da genialidade de Ford. Era genial – mas será que tinham alguma razão os que viam aquilo como homoerotismo? E, se fosse, eles não mereceriam mais o autinho? Já falei muitas vezes, e não sei se sou entendido, que o homoerotismo de certos filmes de Visconti me incomoda, o de ‘Morte em Veneza’, por exemplo. A obsessão de Ashenbach por Tadzio, que acelera sua destruição, é magnificamenmte filmada, mas acho que existe ali um elemento de autocomiseração do grande artista. Visconti entende demais aquela dor. Em contrapartida, acho muito interessante a maneira como cineastas ‘viris’ e recohecidamente heteros – vá lá sabner… – filmam o homossexualismo. John Huston, em ‘Os Pecados de Todos Nós’ e ‘A Carta do Kremlin’, Robert Aldrich em ‘Triângulo Feminino’ e ‘A Lenda de Lilah Claire’. Aldrich fez filmes sobre lesbianismo, mas e todos aqueles homens que ele gostava de filmar na guerra e no western? Aquele sorriso do Burt Lancaster em ‘Vera Cruz’? No que se refere a Huston, acho que ‘Freud, Além da Alma’ o liberou para a parte de sua obra que de que mais gosto (e que é fortemente psicanalítica). Amo ‘A Noite do Iguana’ e aquela cena do Brando na academia militar de ‘Os Pecados de Todos Nós’, verbalizando seu desejo pelo soldadinho que cavalga nu aquele cavalo (e morre de tesão por Liz Taylor, com quem Brando é casado), aquilo me parece uma coisa de louco. Mas não se preocupem – ‘Rastros de ódio’ vai continuar sendo um dos filmes do meu coração, mesmo que John Ford amassasse, e beijasse na boca, toda a Academia Militar de West Point, onde filmou aquele filme bonito com o Tyrone Power.