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Luiz Carlos Merten

30 Abril 2007 | 16h33

Não consigo fechar o computador. Não me lembro quem, mas alguém me perguntou outro dia, que livro policial estava lendo. Foi num dia em que eu estava no Recife, correndo entre filmes e louco para terminar o livro em questão. Chama-se O Clube Filosófico Dominical, de Alexander McCall Smith, da Companhia das Letras. (Olha eu fazendo comercial da editora…) Quem me conhece sabe que adoro a literatura policial, mas tenho problemas com certos autores consagrados. Gosto muito de pouca coisa – olhem o paradoxo – de Dashiell Hammet e Raymond Chandler. Adoro, e releio sempre, Conan Doyle, Agatha Christie, Ross McDonald e Georges Simenon, que descobri mais recentemente. Agatha é ‘massa’, como se diz. Leio e releio a velhinha e é sempre como se fosse a primeira vez (livros que li dez vezes!). O problema da literatura policial, para mim, é que sou facilmente manipulável. Me envolvo demais com os personagens e, invariavelmente, crio uma expectativa que raros autores conseguem satisfazer. P.D. James, por exemplo, nunca consegui ler. Acho insuportável. Ruth Rendell me atrai, mas aí é covardia – ela inspirou filmes de Chabrol (Mulheres Diabólicas/La Cérémonie) e Almodóvar (Carne Trêmula) de que gosto muito, em especial o segundo. Gostei de Clube Filosófico. Mais que a investigação de um crime, Alexander McCall Smith cria um romance de personagens, para debater questões de fundo moral. Sua detetive (amadora) edita uma revista de ética aplicada. Boa parte do que faz toma a filosofia de Kant como parâmetro, mas para discutí-la. E a questão ética fundamental não se refere ao crime, propriamente dito, mas ao fato de ela ter ou não direito de interferir na vida amorosa da sobrinha. Li com interesse, senão com verdadeiro prazer. Acho que daria filme, mas seria um policial não policial, se vocês me entendem. Um drama…