Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Eterna juventude de uma carroça de ouro

Cultura

Luiz Carlos Merten

18 Janeiro 2008 | 00h08

Bergman e Renoir dizem alguma coisa para vocês? A Versátil está lançando ‘Juventude’, um Bergman do começo dos anos 50, anterior a ‘Noite de Circo’, com Maj Britt Nilsson que depois se americanizou, virou May Britt (e se casou com Sammy Davis Jr., casamento inter-racial que provocou sensação nos anos 50). ‘Juventude’ foi lançado na época com um acréscimo ao título. Era ‘Juventude, Divino Tesouro’, o que fazia sentido porque a história trata desta famosa bailarina que descobre um antigo diário e revive seus verdes anos. Na capa do DVD há uma frase atribuída a Godard, em que ele diz que ‘Juventude’ é seu Bergman preferido. A frase, até onde sei, é antiga e não sei se Godard a manteria hoje, até porque Ingmar fez depois ‘Mônica e o Desejo’ e ‘Sorrisos de Uma Noite de Amor’, que também encantavam Jean-Luc. Preciso rever ‘Juventude’, porque o Bergman daquela fase que me atrai é o de ‘Mônica’. Só um pouco mais tarde, com ‘Morangos Silvestres’, encontrei o meu Bergman favorito e a posição se mantém até hoje, por maior que seja minha admiração por outros filmes do diretor sueco morto no ano passado – ‘Quando Duas Mulheres Pecam’ (Persona), ‘Gritos e Sussurros’, ‘Da Vida dos Marionetes’ e ‘Fanny e Alexander’. Falei no começo do post em Bergman e Renoir. É dele o melhor filme de todo este pacote, ‘A Carroça d Ouro’ (Le Carrosse d’Or), com Anna Magnani, de 1952, que Truffaut amava tanto que, em homenagem a Renoir, deu o nome de Le Films du Carrosse à sua produtora. ‘A Carroça de Ouro’ é uma livre adaptação de Prosper Merimée, o autor de ‘Carmen’, contando a história desta trupe de commedia dell’arte que excursiona pela América espanhola justamente no momento em que uma carroça com um carregamento de ouro é despachada para a colônia d’el rey, produzindo todo tipo de confusão. Na obra de Renoir, ‘A Carroça’ representa sua volta à Europa, após os anos nos EUA (durante a 2ª Guerra) e a passagem pela Índia, para fazer ‘O Rio Sagrado’. Regressando à Europa, Renoir foi primeiro à Itália para fazer este filme, só depois reiniciando sua obra francesa, com ‘French Can-Can’ e ‘As Estranhas Coisas de Paris’ (Eléna et les Hommes). Todos são interpretados por atrizes míticas – a Magnani na ‘Carroça’, Maria Félix em ‘French Can-Can’ e Ingrid Bergman em ‘Eléna’. Filme sobre a arte, que mostra que a arte não precisa ser sincera para ser verdadeira, ‘A Carroça de Ouro’ celebra o artifício – é evidente o prazer com que Renoir recria as improvisações da commedia dell’arte. E o filme é deslumbrante como experiência audiovisual – fotografia de Clauder Renoir, música de Antonio Vivaldi. Apesar de toda esta beleza, tem gente que acha que, pós a vertente espiritualista de ‘O Rio Sagrado’, o filme agora resgatado em DVD marca o início da decadência do grande artista, pois, apesar da suntuosidade cênica, ele já estaria dando sinais de esgotamento e repetição. O Renoir seguinte, de ‘French Can-Can’ e ‘Eléna’, retratando o mundo burguês no seu apogeu – a Belle Époque -, tentaria uma reconciliação com o passado de seu pai, o pintor impressionista Auguste Renoir, com o qual ele rompera nos anos 30, quando, influenciado pelo Front Populaire, fez clássicos como ‘A Grande Ilusão’, ‘La Marseillaise’ e ‘A Regra do Jogo’. Depois dessa reconciliação, Renoir ainda faria, no limiar dos anos 60, seu filme mais polêmico – ‘O Testamento do Dr. Cordelier’, uma adaptação de ‘O Médico e o Monstro’, de Robert Louis Stevenson, na qual sustenta a tese de que toda liberação da natureza humana – no fundo, toda contestação radical da moral e dos costumes – leva à bestialidade. O incendiário dos anos 30 teria virado um bombeiro? Esta é uma discussão para depois. O Renoir de ‘A Carroça de Ouro’ é pura beleza. O sucesso do filme foi tão grande nos EUA que Hollywood ‘importou’ Anna Magnani. Ela é genial e ‘A Carroça’ prossegue a vertente de ‘Belíssima’, de Visconti, de 1951, no qual o divismo da grande atriz já era utilizado para uma interrogação sobre a arte (ou o ato) da representação.

Encontrou algum erro? Entre em contato