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Estranho amor que o tempo não apaga

Luiz Carlos Merten

18 Junho 2010 | 10h44

Cheguei ontem em casa e me esperava um pacote de clássicos da Paramount, com filmes sobre os quais temos falado nos últimos posts. ‘O Homem Que Matou o Facínora’, ‘As Pontes de Toko-Ri’ etc. Outros abrem possibilidade para a inserção de posts interessantes, como ‘O Tempo não Apaga’, de Lewis Milestone, que não é outro senão ‘The Strange Love of Martha Ivers’, com Barbara Stanwyck como a mulher (fatal) que recorre a amigo de infância para tentar se livrar do marido, ao qual está ligada por crime que cometeu no passado. Emigrado russo, Milestone virou diretor em Hollywood apadrinhado por Howard Hughes. Sua glória decorre de um filme que fez no começo dos anos 1930. ‘Sem Novidade no Front’ baseia-se no romance de Erich Maria Remarque sobre a guerra de 1914/18. O clássico pacifista, como é conhecido, transformou Milestone em especialista de filmes de guerra, e ele fez outros (‘Até o Último Homem’, ‘Mais Forte Que a Vida’, ‘Um Passeio ao Sol’, ‘Os Bravos Morrem de Pé’ , o próprio ‘O Arco do Triunfo’ etc). Nunca vi seu filmes de aventuras ‘O General Morreu ao Amanhecer’, que goza de ótima reputação junto aos cinéfilos – Jean Tulard o coloca nas nuvens no ‘Dicionário de Cinema’ -, mas o noir é bom e Barbara excede no papel talhado para ela. Aliás, é curioso como ‘Martha Ivers’ transforma o melodrama em noir e essa virada marcou a carreira da própria atriz. Barbara – seu nome era Ruby Stebens – foi telefonista, bailarina (de cabaré) e chorus girl, antes de fazer a ‘América’ chorar como a mãe redentora de ‘Stella Dallas’, de King Vidor. Ela foi heroína de comédias de Frank Capra, Preston Sturges e Howard Hawks antes que Billy Wilder fizesse dela a protagonista feminina de ‘Pacto de Sangue’, que adaptou de James M. Cain. A transição para o noir se fez por meio dessas personagens ambiciosas e sensuais que pareciam, até então, exclusividade de Joan Crawford. Logo depois de ‘Pacto’, em 1945, veio ‘O Tempo’, n o ano seguinte, e Barbara Stanwyck foi parar no western, que já frequentara antes, mas agora com papeis mais sombrios, em obras de Anthony Mann, ‘Almas em Fúria’, e Allan Dwan, ‘The Cattle Queen of Montana’, título que adoro, pela sonoridade (no Brasil, foi ‘Montana, Terra do Ódio’). Vi só uma vez ‘O Tempo não Apaga’, na TV. Espero rever o filme para poder voltar a ele. Foi a estreia de Kirk Douglas, na sua fase mais ‘canalha’ e o personagem deve se contrapor a Van Heflin, que costumava fazer o ‘íntegro’.