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Estou em débito com o grande Preminger

Luiz Carlos Merten

05 Abril 2018 | 10h08

Dib Carneiro diz que nunca me viu tão apreensivo. É que coisas muito dolorosas estão ocorrenfo comigo, e não me refiro só ao joelho. Esse tem data de validade. Consegui antecipar minha cirurgia, marcada para dia 17. Opero-me amanhã. Prótese de joelho. Vou ganhar um joelho novo, e embora todo mundo me assuste com o pós-operatório, minha expectativa é de que essa dor terrível vá acabar. Nessa correria final, pré-cirurgia, sigo trabalhando. Estreia hoje, nesta quinta, 5, Arábia, e eu não preciso lembrar que o filme de Affonso Uchôa e João Dumans é, para mim, o melhor nessa vertente atual do cinema brasileiro que tem colocado o foco na classe trabalhadora. Belíssimo, o Arábia. A prosódia mineira em toda a sua riqueza. Mas estou mortificado. Tantas vezes falando, aqui no blog, na obra-prima de Otto Preminger, In Harm’s Way, reintitulada A Primeira Vitória no Brasil, e nas minhas atribulações de ontem deixei passsar que o filme seria exibido à noite, na TV Paga. Tel Cult, 19 h. Se servir de consolo, haverá nova exibição no dia 9, às 10h45. Fiz um destaque no Caderno 2, mas gostaria de ter escrito mais aqui no blog. A Primeira Vitória! A Guerra no Pacífico, John Wayne como Rockwell Torrey. O filme começa com o ataque japonês a Pearl Harbour. Torrey, chamado ‘The Rock’, a Rocha, é capitão de um cruzeiro. Recebe a ordem de perseguir o inimigo, mas seu barco é torpedeado e colocado fora de operação. Ele é afastado, mas pouco a pouco recupera o posto de comando e lidera uma operação importante na ilha fortificada de Levu-Vana. O cara não é The Rock impunemente. Como um herói fordiano, tem um filho que, contra a vontade da mãe, se alista na Marinha, com o pai. Complexas relações familiares. Kirk Douglas faz o homem em crise, Eddington, que libera seus demônios sobre as mulheres, e Patricia Neal é Maggie, a enfermeira que vai ser o refúgio afetivo de Rockwell. Preminger começou no noir e atravessou os anos 1950 enfrentando a censura de Hollywood para abordar temas que não agradavam à indústria. No final daquela década, descobriu seu grande tema – o conflito do humano com as instituições, Justiça, Política, Revolução, Igreja, Exército (nesse caso, Marinha). A amplidão dos temas levou-o a buscar novas formas de expressão. Descobriu a Panavision, que lhe forneceu as câmeras mais avançadas da época para que pudesse colocar seus personagens, e suas ações, no maior quadro possível. Sua mise-en-scène, baseada na relação do ator com a câmera – mas quando não é assim? -, levou-o a perfeccionar o plano-sequência. O Cardeal, de 1963, já era um assombro, mas A Primeira Vitória, no ano seguinte, foi uma espécie de culminação. Apesar disso, somos poucos, relativamente, no culto a In Harm’s Way comno um dos grandes filmes daquela década. Os anos 1960 mudaram tudo. Tag Gallagher, Chris Fujiwara são outros oficiantes desse culto. Estou em boa companhia.