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Luiz Carlos Merten

14 Dezembro 2009 | 15h26

Fui ver ‘Avatar’ com o pé atrás. Quer dizer, procuro tanto quanto possível não ser preconceituoso, mas não tinha me impressionado muito com aqueles 15 minutos de filme que a Fox mostrou numa sessão para a imprensa há coisa de dois meses, por aí. Esqueçam tudo o que escrevi, principalmente aquela bobagem de Sam Worthington aparecer metamorfoseado o tempo todo, como sugeria aquela peça promocional – durante todo o filme, acompanhamos, em paralelo, o personagem que ele interpreta e o avatar em que se transforma. Na saída da sessão, ouvi comentários do tipo ‘legal’ e ‘longo’. Achei muito mais do que simplesmente legal e quanto a ser longo… Nem percebi. Os 160 minutos passaram voando, porque a aventura me apanhou de jeito e eu viajei. James Cameron conseguiu, dou meu braço a torcer. Meninos, eu vi. Como não li nada sobre a filmagem, não sei muito bem o que vi, do ponto de vista técnico, mas o estético… Cameron leva o cinema mais longe do que Peter Jackson – na trilogia ‘O Senhor dos Anéis’ – na criação de um universo paralelo que me arrebatou. Há um mistério e uma beleza naquelas imagens e sons que me deixaram chapado. O esquema narrativo até que é simples. Soldado que voltou paralítico da guerra substitui o irmão numa experiência e é enviado a esse planeta distante, Pandora, onde a cientista Sigourney Weaver realiza a experiência da passagem da mente de humanos para o corpo dos nativos. O objetivo é usar esses avatares – humanóides identificados como sendo na’vis – para dominar o planeta, rico em biodiversidade e, principalmente, numa substância que vale bilhões, mas não me perguntem para que serve (é o ‘mcguffin’, como diria Hitchcock, da história). Há um militar ensandecido pronto para explodir Pandora, se necessário, para se apossar da riqueza de seu solo. A mensagem seria, ou é, ecológica, pois o povo que habita Pandora professa uma religião baseada no equilíbrio ambiental. Sua divindade é a mãe que representa o espírito da grande floresta. Tem a ver com a Amazônia? Tem, mas Cameron não fez de ‘Avatar’ uma epopeia imperialista, pelo contrário. De cara eu entrei no filme. O soldado, tão logo ‘penetra’ no corpo do seu na-vi, meio que enlouquece, pela sensação de recuperar os movimentos. Inicialmente, ele não tem controle sobre os movimentos e, logo, dispara a correr, como se estivesse sob o efeito de uma droga. Achei aquilo de uma beleza de cortar o fôlego. Chorei, fazer o quê, e depois passei meio filme emocionado com a aproximação do na-vi macho e da fêmea que o acolhe (e que é interpretada por Zoe Saldana). Ele se chama Jake Scully e para os na-vis vira Jakescully. Ela é Neytiri. Mais do que um filme de aventuras, com sua ética, recebi ‘Avatar’ como uma experiência mística e religiosa, na qual o soldado tem de se desligar do seu mundo – ‘trair’ a sua raça – para se ligar à natureza e virar seu avatar. Não sei se faz sentido, mas não resisti à tentação de postar logo alguma coisa, para alimentar a expectativa de vocês. O filme estreia dia 18 com 500 cópias em 35, mais 110 em 3-D e duas em Imax. Como vi em Imax, recomendo que tentem ver no mesmo formato. É onde a fruição é mais completa. E o tal Sam Worthington… Havia visto na capa de uma revista norte-americana a interrogação – será ele o maior ator de Hollywood, na atualidade? Achei exagero, agora já estou achando que talvez seja. Jake passa meio filme na cadeira de rodas ou então como na-vi. A ligação de um estado a outro é feita pelos olhos. O cinema, dizia Nicholas Ray há mais meio século, é a melodia do olhar. A tal melodia passa pelo olhar de Worthington. Poderoso!