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Luiz Carlos Merten

14 Abril 2008 | 11h47

Fui rever ontem ‘Estômago’, do Marcos Jorge. Estou em êxtase – ia escrever lua-de-mel. Que filme bom! Bem escrito, dirigido, interpretado. O que é o João Miguel? Já tenho candidato ao prêmio de melhor ator da APCA em 2008. Embora a gente ainda esteja em abril, duvido que surja outra interpretação masculina melhor até dezembro. Acho bobagem ficar conjeturando o que seria do filme sem ele, pois João está ali, é maravilhoso e por mais que ambos possam ter divergido no set – o que confessaram, separadamente, nas entrevistas que fiz com ambos -, tenho a impressão que diretor e ator, ambos co-autores, terminaram se estimulando muito mais do que gostariam de admitir. Agora, que o filme é bem escrito – é. Confesso que tive um momentinho de prazer solitário – credo, parece p… – naquela cena final em que o João… Tá louco, Merten, ia entregar o ouro? Mas não sabia, quando vi o filme no Festival do Rio, que na subida da escada, ali no finalzinho, quando Marcos Jorge filma o vento agitando as cortinas, o som veio de um filme do Fellini, como uma homenagem muito-muito sutil. Como estava pós-produzindo seu filme na Itália, onde estudou cinema e viveu por muitos anos, o Marcos permitiu-se (e teve os recursos para) prestar a homenagem. Gostei demais. E essa coisa da comida… Bergman dizia que sexo e fome são os impulsos que empurram os homens para a vida. Existem tantos filmes ligados à culinária – quando me falam em gastronomia e cinema, penso nos filmes ‘elevados’, como ‘O Cheiro do Papaia Verde’, de Tran Anh-Hung, e ‘A Festa de Babette’, de Gabriel Axel. Mas existem os outros mais chão-a-chão, mais grotescos, como ‘A Grande Comilança’, de Marco Ferreri – no qual Marcos Jorge, decididamente, não pensou, pois não é um autor que o entusiasme – e ‘O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante’, de Peter Greenaway. Acho que o desafio, consciente ou não, de Marcos Jorge, foi buscar uma síntese entre essas duas representações. Seria, talvez, mais fácil para ele levar o filme somente para o lado do Axel, ou do Ferreri. A síntese é um ato – maravilhoso – de direção. Adorei. E a atriz que faz a p…, hein? Muito legal. E o bumbum, então? ‘O Cheiro do Ralo’ fez escola.