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Luiz Carlos Merten

09 Dezembro 2008 | 23h02

É curioso que Celdani, a par de ‘A Última Carroça’, tenha citado também outro western que comprou no site DVD World – ‘A Noite dos Pistoleiros’, título original ‘Rough Night in Jericho’, de 1967. Dean Martin faz o ex-xerife que agora domina a ferro e fogo a cidadezinha de Jericho e George Peppard é o jogador profissional que vai enfrentar o tirano, com a ajuda de Jean Simmons, ex-sócia e namorada do criminoso numa linha de diligências. Um elenco desses é meio caminho andado para tornar qualquer filme, independentemente de gênero, interessante, mas ‘A Noite dos Pistoleiros’ não dispõe de muito boa reputação. Até onde me lembro, o diretor Arnold Laven, em vez de ser simples e direto, atravanca o relato com efeitos decorativos, escondendo a câmera atrás de abajures, sob o rendado de cortinas etc. Quando falei no filme como um caso curioso foi pelo seguinte. No recente post sobre Peckinpah, lembrei o começo da carreira do grande Sam como roteirista de TV. Só que, além de séries de TV, Peckinpah escreveu roteiros para cinema. Colaborou com Don Siegel, como contei – em ‘Vampiros de Almas’ -, e escreveu para Laven um western pró-índio, ‘Gerônimo’, com Chuck Connors na pele do lendário cacique. Na seqüência, Laven dirigiu mais um western escrito por Peckinpah, ‘Assim Morrem os Bravos’, cujo foco – desmistificador – era direcionado para o intrépido general Custer. Esses dois filmes com o dedo de um dos autores mais influentes da história do western representaram um upgrade na carreira do modesto Arnold Laven, que, entregue a si mesmo, mostra em ‘A Noite dos Pistoleiros’, que não possui tradição no gênero nem é um narrador confiável. Aliás, aproveito para acrescentar aqui uma informação que me persegue há dias. Quando fui ver ‘Appaloosa’, achei que o filme de Ed Harris tivesse algo a ver com os famosos cavalos, mas não. Um ano antes de ‘A Noite dos Pistoleiros’, surgiu, em 1966, outro bangue-bangue chamado, no original, ‘The Appaloosa’ e que, este sim, tem a ver com a raça de eqüinos.. No Brasil, chamou-se ‘Sangue em Sonora’ e dispôs de certa fama como um dos muitos filmes em que Marlon Brando desperdiçava seu talento nos anos 60, antes de ser resgatado, no começo dos 70, por Coppola e Bertolucci, que lhe ofereceram, quase simultaneamente, os papéis viscerais que ele representou em dois clássicos, ‘O Poderoso Chefão’ e ‘Último Tango em Paris’. Sydney J. Furie era o diretor de ‘Sangue em Sonora’. Considerado um técnico brilhante, lançou o agente Harry Palmer, interpretado por Michael Caine, em ‘Ipcress, Arquivo Confidencial’. O personagem era interessante – o anti-007 -, mas Furie se preocupava mais com ângulos inusitados e closes do que com o dinamismo ou, mesmo, a credibilidade da história. Ao incursionar pelo western, ele revelou o mesmo defeito de Arnold Laven em ‘A Noite dos Pistoleiros’, optando por uma imagem mais decorativa do que propriamente dramática. Na trama de ‘Sangue em Sonora’, Marlon Brando persegue, através da fronteira mexicana, o homem que roubou seu cavalo. Um exemplo do virtuosismo vazio de Furie é a cena em que Brando finge dormir para vigiar o adversário e o diretor adota como ângulo o que ele vê por meio dos dedos que lhe tapam o rosto. Esse tipo de esteticismo duvidoso, à Laven e à Furie, seria evitado pelos grandes do western. Na época, não poucos críticos viam na busca desses efeitos uma influência mal assumida – por Hollywood – do spaghetti western e daquele que já era o maior diretor do gênero, Sergio Leone. Ele adorava os closes e planos de detalhes, bastando ver as moscas que participam da tensão na abertura de ‘Era Uma Vez no Oeste’. Mas não vamos confundir alhos com bugalhos. Leone, com apoio de Ennio Morricone, estava transformando o western em ópera e o que parecia sacrilégio – Jean Tulard chega a usar o termo – virou cult.