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Esses italianos…

Luiz Carlos Merten

06 Março 2009 | 13h11

Desde terça rola no Centro Cultural São Paulo um ciclo dedicado a Marcello Matroianni, com grandes filmes. ‘A Doce Vida’, ‘Oito e Meio’, ‘O Belo Antônio’, ‘Um Dia Muito Especial’, ‘Casanova e a Revolução’ etc. No CineSesc, a partir de hoje, começa outro ciclo sobre outro grande do cinema italiano, Federico Fellini. Existem filmes – e momentos – que marcam a intersecção dos dois eventos. Mastroianni dirigido por Fellini… Até coloquei isso na minha matéria de terça, no ‘Caderno 2’. Mastroianni já tinha 36 anos e havia feito 42 filmes quando Fellini fez dele o jornalista Marcello Rubini, de ‘A Doce Vida’. Embora ele já tivesse trabalhado com grandes diretores – Luchino Visconti em ‘Noites Brancas’, Mario Monicelli em ‘Os Eternos Desconhecidos’ –, Mastroianni não emplacava e parecia condenado a uma carreira de segunda. Tudo mudou a partir dos dois filmes, ‘A Doce Vida’ e ‘Oito e Meio’, em que Fellini fez dele o seu alter ego. Tive o privilégio de entrevistar Mastroianni, certa vez, integrando um grupo no Festival de Veneza. A entrevista era para jornalistas italianos, mas me infiltrei e, não resisti, fiz lá minhas perguntas. Na primeira, os caras perceberam que eu não era italianio e queriam me enxotar da sala, que, aliás, nem era uma sala, mas um encontro informal no bar do Hotel Excelsior. Mastroianni foi magnânimo – ‘Lascia stare…’ Homem bonito, charmoso – ator de linhagem –, Mastroianni encarnou o amante latino, mas nunca fez dessa imagem uma camisa de força a condicionar sua evolução como ator. Seus filmes com Sophia Loren (‘Ontem, Hoje e Amanhã’, ‘Matrimônio à Italiana’, ‘Girassóis da Rússia’, todos de Vittorio De Sica)e Laura Antonelli (‘Esposamante’, de Marco Vicario) sacramentam a figura do galã, mas Mastroianni interpretou gays, impotentes, velhos decrépitos, sendo admirado por esses papéis. Comédias, dramas, ele nunca privilegiou gêneros – foi o pungente irmão de ‘Dois Destinos’, de Valerio Zurlini, o intelectual blasé de ‘A Noite’, de Michelangelo Antonioni, o siciliano cornuto de ‘Divórcio à Italiana’, de Pietro Germi, e o atormentado e niilista Mersault de ‘O Estrangeiro’, de Camus, revisto por Visconti – e eu confesso que ao mergulhar nessa carreira extraordinária, em que o cinema de autor anda de braços com o mais comercial, me dá vontade de rever vários filmes. Sobre Fellini, tenho de admitir que sou reticente a certos filmes do começo de sua carreira e a outros do final. Nunca consegui ‘entrar’ na misantropia de ‘Fred e Ginger’ e, menos ainda, nas elocubrações de ‘A Voz da Lua’, que me pareceu um porre. Talvez Fellini estivesse adiante de sua época e eu bem atrás dele, não sei, mas sabem qual filme de Fellini ando com vontade de (re)ver? Pois é ‘Satyricon’. Minha lembrança desse Fellini não é a melhor, mas desde que vi que o filme integra a programação tenho me surpreendido pensando nas imagens barrocas que têm, menos a ver com Petrônio do que com um imaginário que o autor já vinha exercitando. São os dois filmes que quero ver em tela grande – ‘O Belo Antônio’, no ciclo de Marcello, e ‘Satyricon’ no de Federico. Espero que a gente se encontre no CCSP ou no CineSesc.