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Luiz Carlos Merten

09 Novembro 2009 | 10h26

Já falamos aqui várias vezes sobre os anos de 1939 e 59 como emblemáticos na história do cinema. Em 39 surgiram ‘…E o Vento Levou’, ‘O Mágico de Oz’, ‘No Tempo das Diligências’, ‘Ninotchka’, ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ etc, isso só em Hollywood. Na Europa, Jean Renoir estava fazendo ‘A Regra do Jogo’. Cinéfilo que se preze sabe da importância de cada um desses filmes. Vinte anos mais tarde, de novo em Hollywood, foi a vez de ‘Anatomia de Um Crime’, ‘Onde Começa o Inferno’ (Rio Bravo), ‘Quanto Mais Quente Melhor’, ‘Ben-Hur’. E na Europa – ‘Hiroshima, Meu Amor’, ‘Os Incompreendidos’ (Les 400 Coups), ‘A Fonte da Donzela’. Mas eu quero me fixar agora em 1960, e na Itália. Algo se passou naquele ano, na verdade, no biênio 1959-60, quando surgiram três filmes farois. Em primeiro lugar, é preciso contextualizar. Ao longo dos anos 1950, a Itália, apoiada pelo Plano Marshall, com o qual os EUA tentavam conter o avanço do comunismo na Europa, se reerguera, economicamente. Como consequência, o modelo neo-realista que irrompera após a 2ª Guerra foi se tornando obsoleto e a urgência social começou a ser substituída por outros temas. É curioso que, justamente em 1959, Roberto Rossellini tenha voltado aos temas da 2ª Guerra para debater pressupostos éticos em ‘De Crápula a Herói’, no qual justamente Vittorio de Sica, em seu maior papel como ator, encarnou o traidor capaz de morrer como herói, antecipando a relativização desses papéis por Jorge Luís Borges – num texto famoso que inspirou Bernardo Bertolucci a fazer ‘A Estratégia da Aranha’, em 1970. Mas os filmes faróis a que me refiro são outros. Durante os anos 1950, o mundo começara a mudar e o sonho americano começou a ser contestado ao ritmo do rock ou então na violência dos embates nos filmes de Nicholas Ray, Robert Aldrich, Samuel Fuller, Richard Brooks. Na Itália, Federico Fellini, antecipando a década que mudaria tudo – os anos 1960 –, se perguntou o que seria dos costumes, neste novo mundo virado pelo avesso, e fez ‘A Doce Vida’. Michelangelo Antonioni fez outra pergunta – o que será dos sentimentos – e surgiu ‘A Aventura’. Luchino Visconti, finalmente, se perguntou o que será da sociedade, e fez ‘Rocco e Seus Irmãos’. Fellini e Antonioni pulverizaram códigos e estabeleceram uma liberdade narrativa que, a despeito da precisão técnica, não era totalmente diferente daquilo que pregavam os jovens turcos da crítica francesa, erigidos em ‘autores’, no alvorecer da nouvelle vague. eram todos, embora por diferentes vias, revolucionários da linguagem. Comparativamente, Visconti foi mais tradicional na sua estética, fazendo a revolução de forma clássica, num filme que, de alguma forma, ficou datado. O mundo, e a sociedade, não evoluíram conforme ele havia sonhado em ‘Rocco’ e Visconti, se vivo fosse e quisesse refazer sua obra-prima, talvez tivesse de buscar um outro desfecho para a saga da família Parondi. A consciência de classe de Ciro, a sua consciência de pertencer a um grupo, o proletariado e a expectativa de que Luca, o mais jovem dos cinco irmãos, pudesse voltar ao paese, em condições sociais favoráveis, tem sido desmentida pelos rumos da globalização triunfante. É verdade que, em todo mundo, existe uma cultura de resistência e os sonhadores – nós – não desistem da sua crença de que um outro mundo é possível. Falar desses italianos e do seu legado é voltar aos filmes da minha vida. Para a maioria de vocês, jovens, esses filmes fazem parte da história do cinema, mas eu os vi na origem, quando surgiram. Era jovem, imaturo, inexperiente. Não consigo reproduzir aqui o impacto que tiveram sobre min. Minha sensibilidade política não foi esculpida pela leitura de Marx e Engels, obrigatória naqueles conturbados anos 1960, mas por Visconti, ‘Rocco’. Esses italianos maravilhosos e seu cinema fizeram minha cabeça.