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Luiz Carlos Merten

08 Novembro 2009 | 13h40

Por que será que ‘O Batom’ mexe tanto comigo? Embora a memória possa ser traiçoeira, estou certo de que vi o filme, em Porto Alegre, no antigo Cine Rex, no qual a Art exibia a produção italiana, no começo dos anos 1960. O filme deve ter passado próximo de ‘Aquele Caso Maldito’, um giallo (policial) de Pietro Germi, ou então era o fato de que Germi foi ator para Damiani. ‘O Batom’ começa com o assassinato de uma prostituta. Uma garota de 14 anos diz que viu esse sujeito saindo do apartamento dela. Ele é um cafajeste, interpretado pelo bonitinho mas ordinário Pierre Brice. Pietro Germi faz o investigador que duvida da sinceridade da garota. As relações são todas muito complexas, lá pelas tantas a menina está obviamente apaixonada e passa a querer livrar a barra do criminoso. Guardo comigo o desfecho do filme. Para mostrar quão cafajeste Brice consegue ser, Damiani filma uma cena que hoje talvez fosse considerada politicamente incorreta. Brice seduziu uma garota paraplégica, que vem se arrastando com as muletas, até o primeiro plano, a cara de infeliz. Aquilo mexeu muito comigo, talvez, admito, por meu defeito físico, não sei. Tenho muita vontade de rever os primeiros filmes de Damiano Damiani, não apenas ‘O Batom’ e ‘A Ilha dos Amores Infelizes’, que tratam das descobertas da adolescência, mas também ‘A Feiticeira do Amor’, com Rossana Schiaffino, que ele adaptou de Carlos Fuentes, ‘Alba’. É um filme fantástico, com forte apelo erótico. Será bom? Não sei, mas lembro de cenas inteiras entre Rossana e aquele ator inglês que depois se casou com Kim Novak, como era mesmo seu nome… Richard Johnson? Emendo agora com ‘Horas Nuas’, que Marco Vicario fez para a mulher dele, Rossana Podesta, uma das atrizes mais belas do mundo. O filme é meio antonionesco, muito elaborado formalmente. Um cinema de tempos mortos – Rossana anda à deriva, como Monica Vitti e Jeanne Moreau na trilogia da solidão e da incomunicabilidade. ‘Horas Nuas’ passa-se em duas épocas, um dia no passado e outro no presente. Ligando ambos, um morto. Lembro-me de haver lido alguma vez, em algum lugar, que Vicario, produtor, tinha um argumento que não conseguia desenvolver. Um dia, ele se encontrou com Alberto Moravia, que havia acabado de concluir novo romance, ‘Appuntamento al Mare’. ‘Horas Nuas’ é uma síntese dos dois. O filme tem trilha de Rz Ortolani. O tema é o amor fou, o amor paixão, louco. Keir Dullea, um dos astronautas de ‘2001’, mata-se – por que? Pelo vazio dos sentimentos? Vicario não desfruta de grande reputação entre os críticos. Diretor de filmes comerciais – a série dos ‘Sete Homens de Ouro’ -, ele é lembrado principalmente por ‘Esposamante’, com Marcello Mastroianni e Laura Antonelli, que Luchino Visconti e Mauro Bolognini poderiam ter assinado (pelo requinte da reconstituição de época). Por que estou falando desses filmes? Porque sempre espero que a Versátil resgate as obras perdidas na minha memória. Tenho sempre a presunção de que elas possam interessar aos outros. Antônio Gonçalves Filho adora ‘Le Ore Nude’. Lembramos a grande cena quando Rossana e Dullea fazem sexo no campanário e, na hora do orgasmo dela, Vicario corta o som e mostra o sino rodopiando como metáfora do que a mulher está sentindo. Essa cena me persegue como uma das mais intensas representações do sexo no cinema.