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Luiz Carlos Merten

08 Novembro 2009 | 12h28

Dei uma zapeada hoje pela manhã na TV paga, antes de sair de casa – estou no jornal –, e peguei aquela cena de ‘Meu Irmão É Filho Único’ em que os dois irmãos, o politizado, de esquerda, e o alienado se reencontram e discutem no bar. O de esquerda fala do seu sonho revolucionário e o outro tira sarro – como ele pode acreditar que a classe operária vai pegar em armas? E provoca – você consegue pensar em papai, o típico operário, armado pela revolução? O outro retruca – os socos que te dei não adiantaram nada? Eles brincam de brigar, de trocar socos e de repente se abraçam, na alegria do reencontro. É uma cena que só o cinema italiano consegue criar. Tem ecos de ‘Rocco’, claro. Vim de ônibus, como costumo fazer aos domingos, meu dia de ‘proletário’, como digo. O ônibus estava cheio e, na parada do Hospital das Clínicas, um sujeito cego, informado de onde estava, levantou-se correndo para sair, tentou pegar a barrar para se firmar. Ele ficou com aquele braço estendido no ar, o corpo meio desarticulado. De cara, me veio a imagem do cego que toca acordeão em ‘Amarcord’. Mais cinema italiano. Na minha recente participação na série ‘Os Filmes da Minha Vida’, na Mostra, falei de ‘Rocco’, de ‘Hiroshima, Meu Amor’ – que passava anteontem na TV paga e eu perdi a chance de fazer o destaque nos filmes na TV do ‘Caderno 2’ – e ‘Rastros de Ódio’ como filmes que me marcaram (e carrego comigo). Alguém na plateia me cobrou – e Fellini? Gosto de Fellini, mas ele não é um dos meus favoritos. Certas cenas, porém, me acompanham e varias estão em ‘Amarcord’ – justamente o cara tocando acordeão, o pavão que abre sua cauda, o Rex que passa na noite, como um sonho… Tenho pensado muito no cinema italiano, nos últimos dias, acho que desde que falei com o Gian Vittorio Baldi, homenageado da Mostra, e ele me disse, cheio de convicção, o que me pareceu uma bobagem, mas não polemizei. Visconti não é um autor, ele disse, de certo porque o grande Luchino fez muitas adaptações e não assina o roteiro de seus grandes filmes. Não há nada nos filmes de Visconti que não seja 100% dele, me dizia Suso Cecchi d’Amico, sua grande roteirista, e eu creio nisso, como creio que, no cinema, ‘tout est dans la mise-en-scène’ e consequentemente, Visconti é muito maior do que certos manés que escrevem os próprios filmes e só o que fazem com isso é dobrar o próprio analfabetismo. A maioria escreve tão mal quanto filma, mas deixa pra lá. Ando com muita vontade de falar de cinema italiano. Desde que acrescentei, no outro dia, o post sobre ‘Gringo’, de Damiano Damiani – passei hoje na loja, na rua lateral do Teatro Municipal, e comprei o DVD –, ando morrendo de vontade de lembrar o primeiro longa dele, ‘O Batom’, do começo dos anos 1960. Na sexta, conversando com Antônio Gonçalves Filho sobre o texto de Sérgio Augusto sobre Lévi-Strauss que saiu ontem no ‘Caderno 2’, falamos de Jacques Démy, uma preferência comum, e eu não sei como o assunto caiu em Marco Vicario. Como, você não sabe quem é Marco Vicario? O post está enorme. Continuo com os italianos daqui a pouco.