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Cultura » Essa mulher, sim, valia muito

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Luiz Carlos Merten

14 Outubro 2008 | 12h30

Outro pedido de informação. Aproveitando um post sobre meu amigo Sérgio Leeman, que dirigia a rede Telecine em Portugal, Benedito diz que também gosta muito de ‘Nenhuma Mulher Vale Tanto’, de Gordon Douglas e me pergunta se sei alguma coisa sobre o filme em DVD. Confesso que nunca o vi, nem em lojas americanas (como a Virgin) nem nessas que vivo pesquisando no Centro de São Paulo, até porque, se tivesse visto, já teria comprado. ‘Nenhuma Mulher Vale Tanto’ chama-se no original ‘The Iron Mistress’ e a amante de ferro é tanto a faca, na qual o herói, Jim Bowie, interpretado por Alan Ladd, é especialista – ele passou à história por sua destreza e foi parar no forte de Álamo, no episódio que rendeu épico famoso dirigido e interpretado por John Wayne -, como a glacial Virginia Mayo com quem ele se envolve (e o título nacional deixa claro que ela não vale grande coisa). ‘The Iron Mistress’ é de 1952, situando-se na carreira de Douglas entre ‘Fui Comunista para o FBI’, que nunca vi, mas deve tratar, não sei em que chave, do macarthismo (que estava rolando naquele momento), e ‘Vivendo sem Amor’. São filmes bem diversos entre si, um de espionagem (‘Fui Comunista’), outro que é creditado como western, mas é mais ou menos um épico sulista, na vertente de ‘Jezebel’, só que do ângulo masculino (‘Nenhuma Mulher’) e o terceiro um drama (o título original é ‘She’s Back on Broadway’ e trata desta estrela, Virginia Mayo, que tendo fracassado em Hollywood, volta ao teatro, para o ex-marido). Isso era Gordon Douglas, um ‘artesão’ que nunca se fixou num gênero porque, como contratado dos grandes estúdios, fazia o que lhe mandavam, mas seguia a fórmula de Chabrol – filmava não importa o quê, mas nunca não importa como –, o que terminou por transformá-lo num autor no próprio exercício da mise-en-scène, como reconhecia ‘Cahiers du Cinéma’ (mas Douglas nunca foi reconhecido como tal pela revista). Prefiro os westerns de Gordon Douglas, e acho que ele foi um dos grandes pouco valorizados do gênero, mas quando vi ‘Nenhuma Mulher Vale Tanto’, no começo dos anos 60, andava muito impressionado com a definição do cinema de Nicholas Ray (‘É a melodia do olhar’) e fiquei siderado de ver como Douglas já havia sacado isso, construindo todo o filme nas trocas de olhares, que não apenas revelavam a interioridade de seus personagens como conduziam o fluxo da própria montagem. Uma palavrinha sobre o elenco. Douglas fez vários filmes com Alan Ladd (‘Voando para o Além’, ‘Santiago’ etc) e Virginia Mayo (‘O Rifle de 15 Tiros’). Sobre ela, corre uma história que já devo ter contado – pois a adoro –, mas vale repetir. Li em algum lugar, acho que no verbete sobre a atriz na enciclopédia de cinema do francês Roger Boussinot, que o sultão de Bahrein, em visita a Hollywood, e ao estúdio da Warner, pediu para conhecer Virginia Mayo porque ela era – olhem que maravilha – a prova viva da misericórdia de Alá pelos homens. Virginia, loira e bela, nunca foi uma estrela do calibre de Marilyn Monroe, mas com a morena Patricia Medina e outras menos votadas, ela reinou nas matinés da minha infância. Rainha da aventura, fez filmes de ‘gêneros’, westerns, de gângsteres e de espada, que descobri depois serem assinados por diretores que fazem parte do meu imaginário, como Raoul Walsh e Jacques Torneur, além de alguns dramas considerados ‘sérios’ (como se os outros filmes não o fossem) e o mais famoso deles foi ‘Os Melhores Anos de Nossas Vidas’, de William Wyler. Mas já estou me distanciando de ‘Nenhuma Mulher Vale Tanto’. Só não resisto a falar sobre Virginia Mayo. Ela podia não possuir um grande temperamento dramático, mas sua filmografia é ‘A’, para mim, pelos autores fundamentais com quem trabalhou.